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O Papa advert a os padres sobre a “pandemia” da “inveja clérico

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O acompanhamento dos jovens feridos e sedentos de Deus, a evangelização em uma cultura pós-moderna atravessada pela inteligência artificial, a fraternidade sacerdotal frente à tentação da inveja e o sentido espiritual da velhice e da doença marcaram o diálogo do Papa Leão XIV com o clero da diocese de Roma, celebrado na quinta-feira, 19 de fevereiro, no Salão Paulo VI e publicado nesta sexta-feira, 20.

Em um clima de escuta, o Pontífice ofereceu orientações concretas e espirituais, insistindo na proximidade, a oração, a iniciativa pastoral e a vida fraterna como antídotos contra a solidão e a superficialidade pastoral.

Ao responder sobre as dificuldades e tentações do ministério entre os jovens, o Papa sublinhou a complexa realidade familiar e afetiva das novas gerações e a necessidade de um acompanhamento realista e próximo.

“O sacerdote que acompanha estes jovens significa também conhecer a sua realidade, estar perto nesse sentido, acompanhá-los, mas não ser só um mais entre os jovens. Também isto é importante: o testemunho do sacerdote”.

O Papa realçou que o presbítero deve oferecer não só atividades, mas uma experiência viva de fé:

“Ser amigo de Jesus poderá realmente encher sua vida. Mas isto significa que o sacerdote mesmo vive uma vida de amizade com Jesus, para oferecer não só um exemplo mas uma experiência de vida que poderia mudar a vida dos jovens”.

Frente ao isolamento crescente -acentuado pela cultura digital- convidou a criar espaços reais de encontro:

Com o famoso smartphone vivem sozinhos, embora digam: ‘meu amigo está aqui’, mas não há contacto humano… Há que procurar como oferecer outro tipo de experiência de amizade, de partilhar e, pouco a pouco, de comunhão.”

Sobre a inculturação do Evangelho em contextos urbanos em mudança, o Papa alertou contra esquemas repetidos sem discernimento.

“Se queres amar alguém, deves primeiro conhecer. Se queres amar e servir a uma comunidade, é muito importante conhecê-la”.

O Papa alertou contra a tentação de aplicar receitas pastorais sem ler o contexto:

“Não posso dar continuidade: se me mudam de uma paróquia para outra, pensar: «Isto funcionou ali, sigamos fazendo o mesmo».”

Também abordou diretamente o impacto da inteligência artificial na vida sacerdotal, com um aviso claro:

Resistam a tentação de preparar os sermões com inteligência artificial… Para fazer um verdadeiro sermão, que é compartilhar a fé, a IA nunca chegará a poder compartilhar a fé”.

A seu turno, explicou que “assim como todos os músculos do corpo, se não os utilizamos, se não os movemos, morrem, o cérebro precisa ser utilizado, por isso também a nossa inteligência, a vossa inteligência, deve ser exercitada um pouco para não perder esta capacidade“.

E colocou o acento na vida interior como base de toda a inculturação autêntica:

“Parte da resposta é a importância de uma vida de oração… o tempo de estar com o Senhor… Com uma vida autenticamente arraigada Nele podemos oferecer algo que não é nosso”.

Fraternidade sacerdotal: combater a “inveja clerical”

Da mesma forma, referiu-se a o que chamou uma “pandemia” dentro do clero: a inveja.

“Chama-se a ‘inveja clerical’: quando um sacerdote vê que outro foi chamado para uma paróquia maior ou para um encargo melhor, e os laços se rompem… com boatos e críticas. Destrói-se em vez de construir”.

O Papa foi taxativo ao comparar inimizade e indiferença:

“Não sei o que é pior: ser inimigo ou ser indiferente um ao outro”.

Propôs caminhos muito concretos: grupos estáveis de encontro entre sacerdotes, oração comum, estudo permanente e convivência fraterna.

“Se eu ficar aqui sentado dizendo: «Ninguém vem me visitar» —alguns de vocês podem estar nesta situação—, não tenhamos medo de bater à porta do outro, de tomar a iniciativa, de dizer aos nossos companheiros ou a um grupo de amigos: «Por que não nos reunimos de vez em quando para estudar juntos, refletir juntos, ter um momento de oração e depois desfrutar de uma boa refeição?».”

E acrescentou:

“Não será com todos —somos distintos—, mas sim com alguns com quem haja confiança… para não te sentires sozinho”.

Também insistiu na formação contínua:

“O estudo em nossa vida deve ser permanente… É triste quando alguém diz: ‘Não abri um livro desde que saí do seminário’”.

Sacerdotes idosos e enfermos: gratidão, humildade e missão de oração

Na última parte do diálogo, Leão XIV abordou a situação dos sacerdotes maiores, muitos marcados pela doença e a solidão, propondo uma espiritualidade de gratidão e aceitação.

“Há que se preparar na vida para aceitar a idade, a doença e também a solidão”.

Sublinhou que uma vida vivida em comunhão prepara para essa etapa:

“No entanto, se alguém viveu toda uma vida com um certo espírito de diálogo, amizade, comunhão e fraternidade, na realidade pode encontrar respostas muito concretas a esta experiência de estar sozinho e doente, por exemplo.”

Além disso, lamentou que haja pessoas que desde jovens vivem com certa amargura, nunca souberam viver experiências de amizade, de fraternidade ou de comunhão. E assim, desde jovens, ou desde a meia-idade, estão imersos na amargura, “nunca contentes com nada e sempre com este espírito um pouco negativo”.

Perante a cultura do descarte e o debate sobre o fim da vida, pediu coerência testemunhal:

“Devemos ser os primeiros testemunhos de que a vida tem um grandíssimo valor”.

Recordou ainda o papel ativo dos sacerdotes anciãos:

“Embora estejam doentes na cama, a sua oração pode ser um grande serviço, um grande dom. A sua vida ainda tem um grande sentido”.

E incentivou a não descuidar o acompanhamento espiritual:

“Não tenhamos medo de continuar a bela prática do acompanhamento espiritual… ter alguém que te conheça profundamente é um grande dom”.

Caminhar juntos como presbitério

Ao concluir, o Papa expressou a sua gratidão pelo encontro e reiterou a necessidade de um estilo sinodal também dentro do clero:

“Não apenas um programa escrito, mas um autêntico espírito de fraternidade e de compromisso para fazer juntos a nossa missão de servir na Igreja”.

Finalmente, desejou aos sacerdotes um fecundo caminho quaresmal, “tempo de conversão e de alegria”, e impartiu a sua bênção.

 

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