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Não se pode aceitar sem mais a equação de migrante igual a criminoso

O presidente da Conferência Espanhola de Religiosos (CONFER), Jesús Díaz Sariego, afirmou que “não se pode aceitar sem mais a equação de migrante igual a criminoso” embora tenha alertado que “a pobreza e o desraizamento destas pessoas pode gerar situações sociais conflituosas”.

“Não se pode aceitar sem mais a equação de migrante igual a criminoso. Isso não obsta para constatar que a pobreza e o desraizamento de estas pessoas pode gerar situações sociais conflituosas”, indicou Díaz Sariego, numa entrevista concedida à Europa Press.

Neste sentido, defendeu a importância de “ouvir atentamente” as razões de “aqueles que não partilham totalmente da legalização decretada pelo Governo” –a regularização extraordinária de migrantes– porque “certamente há aspetos que devem ser considerados”, mas, ao mesmo tempo, pediu àqueles que “olham com muito receio esta medida” que não se esqueçam da história de emigração dos espanhóis e que os migrantes são “pessoas”, não um “número”.

“Muitos migrantes estão há vários anos no país, vivendo processos diversos de integração; com trabalhos muito precários, suscetíveis a todo o tipo de abuso e denigração”, apontou.

Neste contexto, tem sido valorizado o “trabalho” constante e muitas vezes silencioso” que realizam desde a Igreja espanhola com as pessoas migrantes e no qual também participam “pessoas muito profissionais e expertas nessa realidade”.

“As suas propostas não são improvisadas. Pelo contrário, conhecem bem o terreno e do que estão a falar e as razões que os leva a solicitar a mencionada regularização”, insistiu Díaz Sariego, que confia em “a sua experiência e profissionalidade” e em “o seu contacto diário com rostos concretos de migrantes”.

Resposta às vítimas de abusos: acatamento e aceitação

Por outro lado, sobre a resposta que se está dando desde a Igreja às vítimas de abusos sexuais, o presidente da CONFER destacou a “aceitação e acatamento” das dioceses e congregações aos dictámenes da Comissão Consultiva do Plano de Reparação Integral a menores e pessoas equiparadas em direitos, vítimas de abusos sexuais (PRIVA).

“A resposta das dioceses e congregações aos dictámenes da Comissão tem sido, até agora, de aceitação e acatamento. Prova disso é que ambas as conferências (bispos e religiosos) não tiveram que intervir mais além dos habituais lembretes na celeridade dos processos”, explicou.

Além disso, valorizou como “um passo importante” o acordo assinado com o Governo no início do mês de janeiro para colocar em marcha um sistema misto de reparação às vítimas, tendo em conta que partiam de “posições mais bem encontradas”.

“Quando se tem de abordar uma realidade tão complexa, como o é a dos abusos sexuais a menores, resulta muito difícil lograr respostas completas e muito menos perfeitas. Mas, com o acordo, deu-se um passo importante. Partíamos de posições mais bem encontradas. Conseguimos aproximarmo-nos na necessidade de dar uma resposta o mais acorde possível em favor das vítimas. Ainda há um caminho por percorrer”, indicou.

Acordo Igreja-Estado para reparação das vítimas de abuso no seio da Igreja católica

Segundo recordou, citando os dados da Comissão Consultiva do PRIVA, no último mês, a comissão recebeu 17 novas solicitações de reparação. No total, desde o mês de fevereiro de 2025, data em que se começaram a receber as primeiras solicitações, a Comissão recebeu um total de 127 e emitiu 76 pareceres de reparação.

Sobre o papel que têm desempenhado os religiosos na resposta às vítimas, Díaz Sariego destacou que “a CONFER tem tido um papel importante em relação à realidade dos abusos nas suas diversas manifestações, tais como abusos de poder, de consciência, sexuais”. “Perante esta realidade tão sofrida para muitas pessoas temos sido e seguimos sendo ponte de encontro e escuta”, assegurou.

Igualmente, ha posto em valor o seu “esforço de escuta e entendimento” com as sobreviventes do Patronato de Proteção à Mulher, instituição ativa durante a ditadura franquista e encomendada a algumas congregações religiosas, para as que a CONFER organizou em junho de 2025 um ato público de perdão ante as suas denúncias de exploração, maus-tratos e abusos. No entanto, ha lamentado que este esforço “não tenha dado os resultados esperados por parte de todos”.

Descenso progressivo de religiosos e religiosas

No que a situação da vida consagrada em Espanha, o presidente da CONFER indicou que “o número total de religiosos e religiosas em Espanha ascende a 30.603 neste momento”, aos que há que somar os 893 missionários espanhóis que se encontram fora de Espanha. Por outro lado, destacou que cerca de 1.389 dos religiosos que vivem em Espanha são estrangeiros. Embora, constatou uma queda progressiva no número de religiosos e religiosas em Espanha.

“O número vai progressivamente em descida. Deve-se, entre outras razões, ao envelhecimento dos membros e ao não substituição suficiente de vocações para alcançar os números de religiosos que havia em Espanha na década de os sessenta”, explicou.

Finalmente, Díaz Sariego assinalou que “é ainda prematuro falar de um ‘giro católico’ no contexto cultural” atual, mas destacou o “despertar religioso dos jovens”, algo que atribui à chegada de “uma geração menos encorsetada nos preconceitos e nos tópicos negativos para a Igreja” e sublinhou a necessidade de “acertar no seu acompanhamento sem o sufocar”.

Descida de vocações

“Sem dúvida alguma que há fome de transcendência, de sentido, de profundidade, de espiritualidade. Devemos estar atentos a este despertar religioso dos jovens. Temos de acertar no seu acompanhamento sem o sufocar, tentando compreender o que esse despertar expressa”, concluiu.

 

Jesus Díaz Sariego

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