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Talita kuma, rise to live with dignity

“Talita kum”. Duas palavras aramaicas, ditas em voz baixa e com uma força que atravessa séculos: “Menina, a ti digo, levanta-te”. Não é uma ordem fria nem um mandato distante. É um chamado íntimo, próximo, pronunciado à altura da fragilidade. No pasaje podemos reconhecer que Jesus devolve a vida a quem parecia tê-la perdido. Nesse gesto mínimo pulsa uma ética maior: quando a vida se apaga, não basta olhar; é preciso aproximar-se, pronunciar o nome, oferecer a mão e sustentar o levantar.

Hoje, Talita kum continua a ressoar como uma invocação social. Desperta-nos do cansaço, do cinismo, da costume de aceitar o inaceitável. Convida-nos a desperezarmo-nos como comunidade e a olhar a realidade com dignidade e liberdade. A levantarmos juntos, sem medo da complexidade, com a convicção de que há decisões que não podem esperar mais.

Vivemos tempos de fronteiras endurecidas e relatos simplificados. Discute-se sobre cifras, procedimentos e prazos, enquanto demasiadas vidas permanecem suspensas num limbo administrativo que erosiona a dignidade. Nesse contexto, a proposta de regularização de mais de 700.000 pessoas em Espanha (janeiro de 2026) irrompe como uma notícia esperançada. Não é um gesto improvisado; é o reconhecimento de uma realidade sustentada durante anos por quem trabalha, cuida, constrói, limpa, acompanha e sustenta silenciosamente a vida quotidiana.

Regularizar não cria uma realidade nova: a nomeia. Não inventa a convivência: a ordena. Não concede um privilégio: restitui direitos. Por isso, a regularização não deveria ser um campo de batalha ideológico, mas uma lógica esmagadora que se deveria ter adaptado há tempo. Como se disse com clareza: “Não é nem de direita nem de esquerda. É uma necessidade social”.

Trago aqui alguns testemunhos que se levantam…

Maria cuida de idosos há oito anos. Tem segurado mãos trêmulas, acompanhou despedidas, aprendeu a pronunciar nomes e silêncios. Paga impostos, contribui para o bairro, participa na escola dos seus filhos. No entanto, vive com o medo cotidiano de não conseguir renovar um permiso que nunca termina de chegar. “Não quero papéis para ir embora -diz-. Quero-os para ficar sem me esconder”.

Estas histórias não são exceções. São o pulso cotidiano de uma sociedade que já é diversa e que precisa de políticas à altura da sua realidade.

De uma perspectiva de fé, Talita kum é uma chave de leitura social. Levantar a menina é levantar a dignidade ferida; é interromper a lógica que naturaliza a exclusão. A fé, quando é honesta, não se refugia no templo nem se conforma com a boa intenção: se traduz em decisões públicas que cuidam da vida concreta.

Neste horizonte, a defesa de uma regularização ampla e realista não é uma concessão conjuntural, mas uma opção ética. Regularizar é reconhecer que a convivência se fortalece quando os direitos são compartilhados. É assumir que a sustentabilidade social não se alcança empurrando milhares de pessoas para a invisibilidade, mas integrando-as plenamente no tecido comum.

A tradição bíblica é clara: a lei está a serviço da vida. Quando a norma asfixia, deve ser revista. Quando o procedimento exclui, deve ser corrigido. Não se trata de laxidão, mas de justiça. Não de improvisação, mas de responsabilidade.

Sem direitos não há integração, e sem integração não há convivência duradoura. A regularização não é o fim do caminho, mas o começo de uma cidadania possível, onde deveres e direitos se reconhecem mutuamente. Ouvir quem migra não é um gesto decorativo; é uma exigência democrática. Incorporar as suas experiências melhora as políticas, corrige vieses e evita soluções de papel que não resistem ao dia a dia.

Não podemos deixar de promover uma cultura de acolhimento, inclusão e dignidade nem de gerar consciência social por um compromisso coletivo. Também cada um de nós, institucional e coletivamente, podemos elevar a voz desde a esperança. Acredito, sinceramente, que as orientações administrativas e a sustentabilidade de uma convivência universal podem e devem responsabilizar-se pelas desigualdades estruturais e vitais que afetam, de maneira especial, a quem se vê forçado a migrar e sobreviver. Isto implica reconhecer causas: conflitos prolongados, espolio de recursos, crise climática, desigualdade global.

Implica também agir localmente: facilitar o empadronamento acessível, oferecer acompanhamento jurídico, repensar políticas de habitação, defender o direito universal ao acesso à saúde e à educação.

Talita kum nos convoca a uma conversão cívica a deixar de olhar as pessoas migrantes como problema e reconhecê-las como parte; a compreender que a economia real já conta com elas e que a lei deve se atualizar; a passar do medo ao encontro, da suspeita à confiança, do discurso à prática. Levantar-se é também revisar nossos relatos. Recordar que a irregularidade administrativa não define a valia humana.

Há momentos em que uma sociedade se define pela voz que decide ouvir. Talita kum é hoje essa voz. Diz-nos: levante-se, Europa; levantemo-nos, comunidades e organizações. Façamos da regularização uma decisão madura, justa e eficaz. Não por ideologia, mas por humanidade. Não por cálculo, mas por responsabilidade partilhada. Porque quando uma pessoa se levanta com dignidade, toda a comunidade endireita-se um pouco mais. E então, a vida, finalmente, volta a pôr-se de pé.

 

Iñigo García Blanco, Irmão Marista, i.garciablanco@gmail.com

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