“Poderia dizer, sem exagerar, que nunca tinha percebido tanta dor concentrada em tão pouco espaço. Jesus Fernández, bispo de Córdoba, tem estado nestes dias, junto com outros sacerdotes e membros da Igreja local, como a Cáritas paroquial, no epicentro da tragédia em que se transformou a localidade de Adamuz, após o brutal acidente de comboios do passado dia 18, que custou a vida a 45 pessoas e deixou dezenas de feridos.”
Desde o primeiro momento, a Igreja diocesana fez-se presença. Sustentando, acompanhando, consolando, ouvindo, chorando com o povo. Em meio àquela tristeza, que o bispo qualifica de “indescritível”, monsenhor Fernández e seus sacerdotes também se viram impressionados por outros sentimentos que viveram in situ: o da solidariedade, especialmente dos vizinhos, mas também o de “um profundo sentido de fé” que palparam entre as vítimas e seus familiares, como assinala em entrevista com Religión Digital.
Pergunta. Esteve na zona zero desta catástrofe. Como a recorda?
Resposta. O meu contacto estabeleceu-se principalmente com os familiares das vítimas não resgatadas nem identificadas. O ambiente era de uma ansiedade, uma tensão e uma tristeza indescritíveis. Poderia dizer, sem exagerar, que nunca tinha percebido tanto sofrimento concentrado em tão pouco espaço.
P. Ali tem-se feito presente desde os primeiros instantes a diocese de Córdoba através dos seus sacerdotes. Como avalia esta proximidade?
R. Efectivamente, quando soube da notícia, ao regresso de uma visita pastoral, telefonei para o pároco da paróquia de Adamuz e confirmei-me que já estava em marcha o plano de emergência: a igreja e os locais paroquiais abertos e com aquecimento, a Cáritas paroquial tinha aberto as suas portas para oferecer alimento, bebida, mantas… Por outro lado, uma vez trasladados os familiares para a cidade de Córdoba, também nos fizemos presentes no centro cívico onde estavam para nos colocarmos à sua disposição, ajudá-los, consolá-los, apoiá-los também espiritualmente. O mesmo no Centro Hospitalar Reina Sofia, onde se prestaram os correspondentes auxílios.
P. O que lhe transmitem os seus sacerdotes?
R. Estão muito impressionados, como todos, pela solidariedade mostrada especialmente pelo povo de Adamuz. Além disso, estão impressionados porque, apesar da dor sofrida tanto na espera como na confirmação das piores notícias, a gente mostrou serenidade e, em muitos casos, um profundo sentido de fé. Este trágico suceso produziu um forte impacto espiritual. Os que resultaram ilesos ou com feridas leves mostram-se agradecidos a Deus, enquanto que alguns que não correram a mesma sorte.
P. Ha ido você a ver os feridos ao hospital. Como os encontrou? O que lhe contam?
R. No Hospital Reina Sofía visitei especialmente as crianças. Graças a Deus, no acidente nenhum menino faleceu, mas alguns sofreram lesões. Os que tive a oportunidade de visitar estavam aparentemente tranquilos, inclusive com seus brinquedos, ignorando que algum familiar faleceu. Também falei com o gerente do hospital, que destacou a grande generosidade do pessoal que acudiu em massa e imediatamente para abrir salas de cirurgia e operar os mais graves. Visitei também o Hospital San Juan de Dios. Lá me encontrei com algum doente internado na UTI e com suas famílias que agradeceram muito minha presença e inclusive pediram minha bênção. Escutei também palavras carinhosas e de agradecimento ao pessoal do centro por sua magnífica atenção.
P. El mensaje do Papa para a Jornada Mundial do Enfermo deste ano fala da compaixão do Bom Samaritano e de carregar com a dor do próximo. Não é isto o que vimos estes dias na atuação dos vizinhos de Adamuz?
R. Completamente de acordo. Diante destas situações, emerge o melhor do ser humano e se deixam de lado as diferenças de cultura, de ideologia, de filiação política e religiosa para se dedicar com afinco a atender a quem precisa. Estes eventos nos ajudam a tomar consciência de nossa fragilidade e da necessidade que temos de contar com redes de apoio. Até oferecem uma oportunidade para demonstrar que Deus só aparentemente está ausente, pois se faz presente em tantos corações e mãos generosas que levantam e sustentam o ferido.
P. O que este exemplo diz-nos numa altura em que o embrutecimento parece ganhar força em muitos comportamentos políticos e coletivos, onde precisamente o outro, o diferente, é convertido em objeto de ódio?
R. Efetivamente, este comportamento supõe uma clara denúncia desses comportamentos agressivos e excludentes. Neste sentido, gostaria de destacar a frase que Sua Majestade o Rei Felipe VI disse a Julio, jovem de dezasseis anos que deu um grande exemplo de arrojo e generosidade na atenção aos feridos. Sua Majestade disse que nele via refletida a juventude espanhola. Ojalá seja assim porque, então, Espanha tem futuro.
P. Como vai a continuar a acompanhar a diocese de Córdoba às vítimas?
R. Além do acompanhamento pessoal às pessoas implicadas, que são muito poucas desta Diocese, presidirarei uma missa funeral no próximo domingo às onze horas na aldeia de Adamuz. Posteriormente, na próxima semana celebrarei outra na Catedral. E, claro, continuamos a acompanhá-las com a nossa oração.
José Lorenzo
Religião Digital
Versão portuguesa traduzida com IA
