Domingo III de Natal
11 de janeiro
Mt 3, 13-17
Em uma ocasião, perguntaram a Ramesh Balsekar – discípulo de Nisargadatta – como resumiria todo o seu ensinamento em uma única frase. Sem hesitar um segundo, o sábio respondeu: “Tudo o que ensino, efetivamente, pode ser sintetizado em uma única frase: «Que a tua vontade seja feita»”.
Expressa de forma teísta, tal expressão me traz ao recuerdo uma frase que solía repetirme minha avó: “Filho meu, não te preocupes: nunca ocorrerá nada que Deus não queira”. Com isso, minha avó colocava palavras a duas atitudes que constituíam dois grandes pilares de sua existência: a aceitação e a confiança.
É óbvio que Balsekar, de tradição hindu, não teísta, não se referia a algum deus cuja vontade teria que aceitar, por arbitrária que resultasse. E, no entanto, em essência, estava se referindo a essa mesma dupla atitude.
“Hágase tu voluntad” equivale a dizer sim à vida, aceitando em todo momento o que o presente nos traz, em uma atitude de rendição lúcida, que corre de igual com a confiança mais absoluta.
Na vivência da minha avó, aceitação e confiança nasciam da crença num deus todopoderoso e bom, de quem podias fiar em todo o momento. Na compreensão não-dual, brotam da certeza de que o único sujeito realmente real é a vida (a consciência). Por isso, embora as coisas lhe vão mal ao eu, é possível sempre seguir fazendo pé na confiança que somos.
Mantemos uma atitude de resistência face ao que acontece quando acreditamos que o eu é um sujeito livre. Uma vez que se compreende que não existe o livre arbítrio, não cabe senão a rendição ao curso próprio da vida em cada momento. O que, contudo, não tem nada a ver com a resignação fatalista que assume quem pensa que não tem outra opção. A rendição nasce da compreensão de que somos vida por isso, identificados com ela, em cada momento somos conscientes de estar vivendo o que “temos que” viver.
Enrique Martínez Lozano
(Boletim semanal)
Versão portuguesa traduzida com IA
