Fe Adulta

Uma história em cinco fases

José Luis Sicre Avatar

Segundo Domingo depois de Natal

Orçamento para entender o Prólogo

As conquistas de Alexandre, o Grande, no final do século IV a.C., representaram uma grande difusão da cultura grega. Em Judeia, como em todos os lugares, os gregos exerciam uma influência enorme: cada vez se falava mais a sua língua, se imitavam os seus costumes, se construíam edifícios seguindo o seu estilo, se abriam ginásios, se ensinava a doutrina dos seus filósofos. Os judeus, pelo menos a classe alta, estavam encantados com a sabedoria da Grécia. No entanto, alguns autores não partilhavam esse entusiasmo. Para eles, a sabedoria grega era um produto recente, obra do engenho humano, e tinha o seu templo num lugar pagão, Atenas. A verdadeira sabedoria é eterna, procede de Deus, e reside em Jerusalém.

Isto pode ser dito com palavras vulgares, ou poeticamente, apresentando a sabedoria como uma mulher e contando a sua história. Baseando-nos em diversos textos bíblicos podemos reconstruir essa história da Sabedoria.

A história da Sabedoria de Deus

1ª etapa: a Sabedoria junto a Deus desde o começo (Provérbios 8,22-36).

O Senhor me estabeleceu no princípio das suas obras,

no começo dos seus trabalhos antiquíssimos.

Num tempo remotíssimo fui formada,

antes de começar a terra.

Antes dos oceanos fui gerada,

antes das fontes das águas.

Ainda não estavam encaixados os montes,

antes das montanhas fui gerada.

Ainda não tinha feito a terra e a erva

nem os primeiros grumos do orbe.

2ª etapa: a Sabedoria e a criação

Quando colocava o céu, ali estava eu;

quando traçava a abóbada sobre a face do oceano;

quando eu sustentava as nuvens sobre o alto

e fixava as fontes abissais.

Quando eu fixava um limite para o mar,

e as águas não ultrapassavam a minha ordem;

quando eu estabelecia os fundamentos da terra,

eu estava ali com Ele, como aprendiz, eu era o seu deleite diário,

brincando sempre em sua presença;

brincava com a esfera da terra

deliciava-me com os homens.

Terceira etapa: a Sabedoria instala-se em Jerusalém (Eclesiástico, 24).

Por toda parte busquei descanso

e uma herança onde habitar.

Então o criador do universo me ordenou,

o criador estabeleceu a minha morada:

Habita em Jacó, seja Israel a tua herança.

No santo tabernáculo, em sua presença ofereci culto

e em Sião me estabeleci;

na cidade escolhida me fez descansar,

em Jerusalém reside o meu poder.

Enraizei-me entre um povo glorioso,

na porção do Senhor, na sua herança.

No entanto, existe a possibilidade de que alguns rejeitem os conselhos da sabedoria. De facto, muitos judeus não aceitavam esta mensagem. Outro autor apresenta a Sabedoria como uma mulher que se queixa de não ser ouvida (Provérbios 1,22-25).

Chamei-vos, e recusastes;

estichei a minha mão, e não destes ouvidos;

rejeitastes os meus conselhos,

não aceitastes a minha repreensão.

Em resumo: a sabedoria de Deus está junto a ele desde o princípio, acompanha-o no momento da criação, desfruta com os homens, estabelece-se em Israel. Mas muitos não desfrutam com ela. Preferem seguir outro caminho, não lhe dão caso.

A história da Palavra

O autor do Prólogo aplicou as ideias anteriores a Jesus, introduzindo algumas mudanças. Antes de tudo, em vez de chamá-lo sabedoria de Deus, preferiu chamá-lo a Palavra.

Primeira etapa: a Palavra junto a Deus

No princípio existia a Palavra,

e a Palavra estava junto a Deus,

e a Palavra era Deus;

ela estava no princípio junto a Deus.

Há uma diferença notável com o texto sobre a Sabedoria. A sabedoria é criada por Deus. A Palavra, não; existe com ele desde o princípio. Além disso, o autor do hino é muito sóbrio, não lhe ocorre dizer que a Palavra brincava na presença de Deus.

Segunda etapa: a Palavra e a criação

Tudo foi feito por meio dela,

e sem ela nada do que foi feito se fez.

O que surgiu nela foi a vida,

e a vida era a luz dos homens;

e a luz brilha na escuridão,

e a escuridão não conseguiu derrotá-la.

Parece um trava-línguas, mas é muito simples: tudo foi criado pela Palavra de Deus. O sol, a lua, as estrelas, as montanhas, o mar, o mármore, a madeira, o cristal… Tudo foi criado pela Palavra de Deus. E ela, além de ter criado os homens, é também a nossa luz. A única novidade, muito importante, é que desde o princípio se trava uma luta entre a luz e a escuridão; mas a escuridão não logra impor-se, não pode derrotá-la.

Terceira etapa: o mundo, criado pela Palavra, a ignora.

Até agora tudo tem corrido bem. Deus e a Palavra podem estar contentes. De repente, advertem que a Palavra é ignorada pelo mundo.

Em o mundo ela estava,

e embora o mundo tenha sido feito por meio dela,

o mundo não a conheceu.

O mundo não se refere aqui aos seres inanimados mas às pessoas que ignoram a Deus, não o adoram, ou prescindem dele. O autor do Prólogo pensa em todos os povos pagãos, que poderiam ter conhecido ao Deus verdadeiro, mas que tinham caído em diversas formas de idolatria.

Quarta etapa: a Palavra decide instalar-se em Israel; o seu povo rejeita-a

O que a Palavra fará quando for ignorada pelo mundo? Para um judeu, a resposta é clara: refugiar-se em Israel, o povo escolhido, tal como a sabedoria fazia: “Eu lancei as minhas raízes entre um povo glorioso, na porção do Senhor, na sua herança”. O mesmo faz a Palavra, mas encontra uma desagradável surpresa:

Veio à sua casa,

e os seus não a receberam.

Quinta etapa: a Palavra decide fazer-se carne e habitar entre nós. 

A Palavra sofreu duas derrotas: o mundo a ignora, o seu povo a rejeita. O que faria qualquer um de nós no seu lugar? Ficar junto a Deus e esquecer-se de todos. Felizmente, Deus não é assim. A Palavra toma a decisão mais assombrosa que se pode imaginar.

E a Palavra se fez carne

e montou a sua tenda entre nós

e contemplámos a sua glória,

glória do Filho unigénito do Pai,

cheio de graça e de verdade.

Pois da sua plenitude todos nós recebemos

graça sobre graça.

Do otimismo ingénuo ao realismo mágico

A história da Sabedoria resulta demasiado otimista. O hino pode parecer muito pessimista. No entanto, não o é. Embora não seja toda a gente nem todo Israel, há um grupo, formado por judeus e pagãos, dispostos a acolher Jesus, a crer nele. E esses, todos nós, recebemos uma enorme recompensa.

Mas aos que o receberam

os fez capazes de serem filhos de Deus.

E este grupo contempla a sua glória, e da sua plenitude recebe graça após graça.

 

José Luis Sicre

Versão portuguesa traduzida com IA

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