Fe Adulta

Amós 7, 12-15 / Efésios 1, 3-14

Amós e Jesus rejeitados pela “Igreja oficial”. Se a igreja oficial rejeita os profetas, a quem ouviremos?. A Palavra geralmente vem “de baixo”, poucas vezes “de cima”…

AMÓS 7, 12-15

E Amasias, sacerdote de Betel, disse a Amós: «Vai-te, vidente; foge para a terra de Judá; come lá o teu pão e profetiza lá. Mas em Betel não continuarás a profetizar, porque é o santuário do rei e a Casa do reino.» Amós respondeu e disse a Amasias: «Eu não sou profeta nem filho de profeta, eu sou vaqueiro e cultivador de figos. Mas o Senhor me tomou de trás do rebanho, e o Senhor me disse: “Vai e profetiza ao meu povo Israel.”

Amós, nascido no Reino do Sul por volta do ano 750, começa a falar em nome de Deus no Reino do Norte, anunciando o castigo de Deus que se aproxima (a destruição do reino) e é repreendido por Amasias, sacerdote do santuário de Betel, que é o santuário nacional, controlado pelo rei (o reino do norte tem seu próprio culto e seus sacerdotes, independentes de Jerusalém).

Existe a corporação dos profetas, também “oficiais”, ligados aos templos, mas Amós não pertence a ela, e fala ao povo anunciando o castigo de Deus por seus pecados e a destruição do reino. Os sacerdotes oficiais rejeitam o profeta não oficial, que não faz parte dos colégios de profetas, mas fala porque Deus o escolheu.

É frequente nos profetas essa condição de “marginais”. Não são sacerdotes, nem pertencem aos colégios de profetas reconhecidos. São escolhidos por Deus gratuitamente, tirados de seus ofícios e chamados a anunciar a Palavra. E é ainda mais frequente que sejam eles que comunicam a verdadeira Palavra de Deus, enquanto os profetas que o são por ofício não o fazem.

Amós repreende o povo e o rei por seus pecados e lhes anuncia o castigo. O sacerdote oficial o denuncia ao rei, pois não pode tolerar que no templo real se proclame uma doutrina tão perigosa (para o profeta e para ele mesmo, responsável pelo templo) mas (é um traço de delicadeza de Amasias) avisa o profeta para que fuja e salve sua vida.

O texto coloca um delicado problema, presente nas religiões e sobretudo nas religiões que têm algo de oficial: incomodar o povo ou o rei, mesmo dizendo palavras verdadeiras, mesmo a Palavra de Deus, pode ser um delito, traz um risco. Na Igreja temos centenas de casos que o comprovam.

Mas “o oficial” pode não ser o rei, mas a própria Igreja. É muito fácil que qualquer autoridade da Igreja não tolere nenhuma palavra de crítica porque dá por certo que a Palavra de Deus não pode criticar a autoridade (avalizada por Deus).

Tal foi também, convém não esquecer, a situação de Jesus, inovador do que se entendia como Palavra de Deus, sem nenhuma autoridade pessoal reconhecida por seus estudos ou por seu status, crítico dos fariseus e doutores e finalmente assassinado pelos legítimos sacerdotes do Templo.

Mas para nós, gente comum, coloca-se outro problema, muito mais importante: a quem devemos ouvir?

Se a autoridade oficial, para os de tempo de Jesus os doutores e os sacerdotes, para nós o Papa e os bispos, podem estar sujeitos a crítica por um vaqueiro cultivador de figos ou por um carpinteiro sem documentos de Nazaré…

E o pior de tudo é que a Escritura oficialmente aceita por Israel e pela Igreja dá razão a Amós e a Jesus e os tem como Palavra de Deus, frente à Religião oficial.

O tema é excessivo para desenvolvê-lo aqui, mas é necessário colocá-lo. Com que critério contamos para ter alguma segurança? É suficiente que o diga a autoridade legítima? E em relação aos profetas “não oficiais”, é suficiente para desqualificá-los que os rejeite a autoridade legítima?

 

EFÉSIOS 1, 3-14

Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou em Cristo com toda sorte de bênçãos espirituais e celestiais. Ele nos escolheu em Cristo – antes da criação do mundo – para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele por amor. Ele nos predestinou em Cristo – por sua própria iniciativa – para sermos seus filhos, para que a glória de sua graça, que tão generosamente nos concedeu em seu Filho amado, redundasse em louvor dele.

Por este Filho, por seu sangue, recebemos a redenção, o perdão dos pecados. O tesouro de sua graça, sabedoria e prudência foi um desperdício para conosco, dando-nos a conhecer o Mistério de sua Vontade. Este é o plano que ele projetou realizar por Cristo, quando chegasse o momento culminante: recapitular em Cristo todas as coisas do céu e da terra.

[Com Cristo também nós herdamos. Fomos destinados a isso pela decisão daquele que faz tudo segundo a sua vontade. E assim, nós, que já esperávamos em Cristo, seremos louvor da sua glória. E também vós – que ouvistes a Verdade, a extraordinária notícia de que fostes salvos, e crestes – fostes marcados por Cristo com o Espírito Santo prometido, o qual – enquanto chega a redenção completa do povo, propriedade de Deus – é garantia da nossa herança.]

Terminamos as leituras da segunda carta aos Coríntios. A partir de agora, até o Domingo 21, leremos a carta aos Efésios. A opinião mais geral entre os especialistas é que não se trata de uma carta, mas de um tratado, nem é de Paulo, mas de um discípulo que imita o seu estilo, nem foi dirigida originalmente aos cristãos de Éfeso.

Mais do que uma carta, é um tratado, muitas das suas expressões diferem fortemente, em conteúdo e forma, dos escritos mais solidamente paulinos. Tem fortes paralelos com a carta aos Colossenses, cuja autenticidade paulina é hoje também fortemente discutida.

Hoje lemos o princípio, uma introdução ou prólogo solene, uma espécie de hino em que o autor dá graças a Deus pelos dons recebidos, pelo dom supremo de ser filhos, pelo Espírito. Deste texto diz a Bíblia do Peregrino que “é um parágrafo dificílimo, provavelmente o mais difícil do Novo Testamento”, e o qualifica de “alarde – ou emaranhado – gramatical”.

Recuso-me a aceitar que este emaranhado pseudo-paulino seja lido na Eucaristia. Nem o povo vai entendê-lo (que vai ouvi-lo sem mais sem perceber nada) nem a imensa maioria dos padres vai explicá-lo porque também eles não o entenderão, nem vale a pena que algum sublime teólogo lhe dedique dez minutos de sermão que acabarão por confundir a todos (incluindo a ele mesmo, embora não o confesse).

Jesus falava em parábolas para que todos o entendessem. E um dia Jesus, “cheio de alegria no Espírito”, deu graças ao Pai porque “ocultaste estas coisas aos importantes e as revelaste aos simples”. E a nossa grande teologia católica baseia-se mais nos complicadíssimos João e Paulo do que nas parábolas. Não é bom corrigir o estilo de Jesus. Não é bom, mas o fizemos. E assim nos vai.

 

José Enrique Galarreta

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