Fe Adulta

Êxodo 3, 1-15 / 1 coríntios 10, 1-12

Domingo 3º da Quaresma


ÊXODO 3, 1-15

Moisés apascentava o rebanho de seu sogro Jetro, sacerdote de Madiã; levou o rebanho para além do deserto e chegou a Horeb, o monte de Deus. O anjo do Senhor apareceu-lhe numa chama de fogo, do meio de uma sarça. Moisés olhou, e eis que a sarça ardia no fogo, mas não se consumia. Moisés pensou:

– Vou me aproximar para contemplar esta grande visão, e ver por que a sarça não se queima.

Vendo o Senhor que Moisés se aproximava para ver, chamou-o do meio da sarça:

– Moisés, Moisés.

Ele respondeu:

– Eis-me aqui.

Disse Deus:

– Não te aproximes; tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa.

E acrescentou:

– Eu sou o Deus de teus pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó.

Moisés cobriu o rosto, porque temia olhar para Deus. O Senhor disse-lhe:

– Vi a opressão do meu povo no Egito, ouvi o seu clamor por causa dos seus opressores, conheço os seus sofrimentos. Desci para o libertar da mão dos egípcios, para o tirar desta terra, para o levar a uma terra boa e espaçosa, terra que mana leite e mel.

Moisés respondeu a Deus:

– Mas eis que quando eu for aos filhos de Israel e lhes disser: “O Deus de vossos pais enviou-me a vós”, e eles me perguntarem: “Qual é o seu nome?”, que lhes direi?

Deus disse a Moisés:

– “Eu sou o que sou”. Assim dirás aos filhos de Israel: “Eu sou” enviou-me a vós.

Deus acrescentou:

– Assim dirás aos filhos de Israel: O Senhor, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó, enviou-me a vós. Este é o meu nome para sempre; assim me chamarão de geração em geração.

Este texto, que a nós parece tão distante e mítico, é um dos mais importantes do Livro.

Moisés, um israelita educado na corte do Faraó do Egito, é forçado a fugir da justiça do Faraó, porque matou um egípcio em defesa de um israelita. Foge para o deserto do Sinai e encontra um clã de madianitas, o clã de Jetro, sacerdote, que o acolhe. Casa-se com sua filha Séfora e dedica-se a apascentar o gado de Jetro. Neste contexto se situa o texto de hoje.

No Horeb, “a montanha de Deus” para os madianitas, Moisés tem uma revelação de Deus e de sua própria missão. Deus é aquele que deve libertar o povo da escravidão, e Moisés é o enviado de Deus para que se cumpra essa libertação. Moisés terá que voltar ao Egito e tirar o povo em direção à Terra prometida.

O central do texto é a Revelação de Deus. Deus “revela seu nome”. Conhecer o nome é para os antigos como possuir, ter certo domínio. Por isso, ao contrário de todos os outros povos, Israel não pronuncia o nome de Deus, e chama-o “o Altíssimo”, “o Senhor”, “o Deus das montanhas”, “o Deus de nossos Pais”… Agora, o Senhor manifesta seu nome dizendo que Ele é Yahvé: eu sou o que sou. Mas esta é uma revelação muito complexa.

Em primeiro lugar, o que nós traduzimos como “Yahvé” é na realidade um tetragrama impronunciável “YHWH”, ao qual acrescentamos vogais para que soe e possa ser pronunciado. E “Eu sou o que sou” é mais uma evasiva, uma referência a uma ESSÊNCIA incognoscível do que uma definição compreensível. Assim, o fundamental é que Deus se mostra como Libertador e como “completamente Outro” em relação a todos os deuses. Por esta razão, os mandamentos proibirão toda imagem de Deus e proibirão usar seu nome. Tudo isso é o que se significa nos magníficos símbolos que o Livro do Êxodo utiliza constantemente: A Sarça Ardente, a Nuvem, A tempestade sobre o Monte…

A mensagem é, portanto: “O absolutamente Outro, Aquele cujo nome não se pode pronunciar, Aquele que não tem imagem nem figura, o que habita além de todo o cognoscível…..ESSE É O LIBERTADOR”. Deus não é conhecido em si mesmo, não temos acesso à essência divina. Nós o conhecemos em sua atividade por nós, a Libertação.

Esta Libertação foi entendida inicialmente por Israel como meramente política: libertados da escravidão do Egito, conduzidos a uma Terra, ajudados contra os inimigos para construir uma Pátria onde adorar a Deus em um Templo. Pouco a pouco, tudo isso se revela insuficiente; os Profetas aprofundam fortemente a mensagem, até chegar a Jesus, que lhe dá todo o seu sentido mais profundo: libertados do pecado e da morte, pelo conhecimento de Deus.

E isso já está incluído na mensagem mais profunda do Livro do Êxodo, que não se limita a ser uma crônica da maravilhosa libertação política de Israel, mas insiste enormemente na LEI. No mesmo Monte Horeb, Deus dará a Moisés a LEI, que é o instrumento profundo da Libertação, a que deve livrar os homens não da opressão política, mas da opressão do pecado. Assim, retoma-se a mensagem do Gênesis (Deus lutando contra o Caos), linha que se culmina na humilde frase de Jesus, ao jovem rico, em relação ao cumprimento dos mandamentos: “FAZE ISTO E VIVERÁS”.

 

1 CORÍNTIOS 10, 1-12

Irmãos: Não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos sob a nuvem e todos atravessaram o mar; e todos foram batizados em Moisés, pela nuvem e pelo mar; e todos comeram o mesmo alimento espiritual; e todos beberam a mesma bebida espiritual, pois bebiam da rocha espiritual que os seguia; e a rocha era Cristo. Mas a maioria deles não agradou a Deus, pois seus corpos ficaram estendidos no deserto. Estas coisas aconteceram como exemplo para nós, para que não cobicemos o mal como fizeram nossos pais. Não murmureis como alguns deles murmuraram, e pereceram pelas mãos do Exterminador. Tudo isso lhes acontecia como exemplo, e foi escrito para nossa admoestação, a nós que nos coube viver nos últimos tempos. Portanto, aquele que pensa estar seguro, cuidado, para que não caia!

Este texto mostra a dimensão “espiritual” do que narra e interpreta o Livro do Êxodo. Paulo insiste na natureza espiritual da Libertação. Não se trata de pertencer a um povo, nem de submeter-se a ritos, nem de oferecer sacrifícios ou ir ao Templo. Trata-se da libertação interior, da conversão. Esta é a linha tantas vezes proclamada pelos Profetas, representada de maneira clamorosa por Isaías (capítulo 58) e muitos outros textos paralelos, que culminam na frase recolhida por Jesus: “Misericórdia quero e não sacrifícios” (Mateus 12,7 – Mateus 23,23)

 

José Enrique Galarreta, S.J.

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