Yahveh respondeu a Jó desde o seio da tempestade e disse: Quem é este que obscurece o Conselho com razões sem sentido? Cinge os teus lombos como um bravo: vou interrogar-te, e tu me instruirás. Onde estavas tu quando eu fundava a terra? Indica-o, se sabes a verdade…
JÓ 38, 1-11
Yahveh respondeu a Jó desde o seio da tempestade e disse:
Quem é este que obscurece o Conselho
com razões sem sentido?
Cinge os teus lombos como um bravo:
vou interrogar-te, e tu me instruirás.
Onde estavas tu quando eu fundava a terra?
Indica-o, se sabes a verdade.
Quem fixou as suas medidas? Saberias?
quem estendeu o cordel sobre ela?
Sobre o que se firmaram as suas bases?
quem assentou a sua pedra angular,
entre o clamor a coro das estrelas da alvorada
e as aclamações de todos os Filhos de Deus?
Quem encerrou o mar com dupla porta,
quando do seio materno saía borbulhando;
quando lhe pus uma nuvem por vestido
e da nuvem fiz as suas faixas;
quando lhe tracei os limites
e coloquei portas e ferrolhos?
«Chegarás até aqui, não mais além», disse eu,
«aqui se quebrará o orgulho das tuas ondas!»
OS VERSOS SEGUINTES NÃO SÃO LIDOS NA EUCARISTIA.
E Jó respondeu a Yahveh:
“Sei que és todo-poderoso;
nenhum projeto te é impossível.
Era eu que obscurecia o Conselho
com razões sem sentido.
Sim, falei de grandezas que não entendo,
de maravilhas que me superam e que ignoro. …
Eu te conhecia apenas de ouvir falar,
mas agora meus olhos te viram.
Por isso me retrato e me arrependo
no pó e na cinza”
O livro de Jó coloca um dos mais graves problemas do crente: o mal. Na mentalidade judaica habitual, o mal é castigo do pecado, e portanto resulta inteiramente incompreensível o sofrimento do “justo”. Este é o tema colocado por Jó: ele observou fielmente a Lei e, no entanto, vê-se esmagado por todo tipo de desgraças.
Seus amigos dizem-lhe que reconheça que essas desgraças são castigo de seus pecados, mas Jó mantém sua inocência e não consegue explicar o mal que o aflige. O autor do livro oferece a única solução que tem: apelar à Suprema Autoridade de Deus: “Quem és tu para pedir contas a Deus?”. Isso significa que ele não entende nada, continua com seu problema, mas submete-se a Deus e renuncia a entender.
Este é um tema que devemos aceitar como ele é, sem suavizá-lo, sem ir além do que a Palavra nos mostra. Nós queremos buscar uma explicação para o mal. Não a temos.
O sofrimento do inocente, muito especialmente o sofrimento das crianças, é algo que não se encaixa com a nossa fé em Deus Abbá, bom e poderoso. E não temos nenhuma explicação. Acreditamos em Abbá, bom e poderoso, apesar de não podermos explicar o problema do sofrimento do inocente.
É dramática a presença deste problema na própria vida de Jesus. Ele é o mais inocente, o Santo por excelência. E, diante da paixão e da morte, parece compartilhar conosco toda a escuridão do sofrimento.
Ele o manifesta dramaticamente no Jardim das Oliveiras, e mais tragicamente quando recita na cruz o Salmo 22: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”.
Não há nenhuma revelação que nos explique o mal, o sofrimento do inocente. Tudo o que inventamos para explicá-lo é deficiente: o mal é necessário para se opor ao bem, o mal tem caráter de “redenção” pelo pecado, o mal tem sentido como “mérito para a vida eterna”… tudo isso não suporta a ideia de que “Abbá poderia ter poupado a seus filhos tanto sofrimento”.
Com o livro de Jó, mas superando-o pelo conhecimento de Deus que implica Jesus, devemos aceitar que “os caminhos de Deus não são os nossos caminhos” e que não temos solução para este tema.
Mas temos motivos para confiar em Abbá – não apenas para nos submetermos ao Todo-Poderoso – e saber que Jesus não explicou isso, nem muitas outras coisas. Neste tema, a posição de Jesus é clara: sua vida é lutar contra o mal, e é uma parte importante de nossa missão.
Mais uma vez, a revelação de Deus no N.T. antepõe “Deus libertador” a “Deus Senhor”. A fé em “Deus Senhor” nos pediria mais explicações. A fé em Deus Libertador nos pede para trabalhar com Ele contra o mal que aflige seus filhos.
Este é um dos significados mais profundos dos milagres de Jesus. Os milagres de Jesus são de caráter “libertador”, a favor do homem oprimido pela doença, pelo pecado.
A presença de Jesus, a presença de Deus, no mundo, é continuamente acompanhada por “sinais de libertação”, que mostram, mais ainda do que as palavras, em que Deus acreditamos, e o que se espera de nós.
CORÍNTIOS 5, 14-17
Porque o amor de Cristo nos constrange ao pensar que, se um morreu por todos, logo todos morreram. E morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que morreu e ressuscitou por eles. Assim, daqui em diante, não conhecemos ninguém segundo a carne. E, se conhecemos Cristo segundo a carne, já não o conhecemos assim. Portanto, se alguém está em Cristo, é uma nova criação; passou o que era velho, eis que tudo se fez novo.
A morte de Cristo é apresentada como o supremo ato de amor, amor no qual podemos conhecer o amor do Pai. Essas expressões não têm nada a ver com o conceito vulgar de “redenção” (a morte de Jesus como sacrifício sangrento expiatório e vicário), mas estão na linha de João 3,16: “porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito”, ou de Romanos 8,32: “aquele que não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós”.
Em seguida, nossa resposta: viver para o Reino: nem nosso conhecimento das pessoas nem o de Jesus é mais como antes, isso é “o velho”. Oferece-se-nos um novo modo de viver e de pensar, com os critérios e valores de Jesus, como se tivéssemos sido criados de novo.
Esta nova criação, criatura nova, é a que se celebra no batismo, com o símbolo de “ser libertado das águas, passar do perigo de morte por asfixia à luz, ao ar, à vida em liberdade, como um filho de Deus.
José Enrique Galarreta
