Domingo 28 do Tempo Comum
2 REIS 5, 14-17
Naqueles dias, Naamã, o sírio, desceu e mergulhou sete vezes no Jordão, conforme Eliseu lhe havia ordenado, em nome de Deus, e sua carne ficou limpa da lepra, como a de uma criança. Voltou com sua comitiva ao homem de Deus e apresentou-se dizendo:
– Agora reconheço que não há Deus em toda a terra senão o de Israel. E tu aceita um presente do teu servo.
Eliseu respondeu:
– Juro por Deus a quem sirvo que não aceitarei nada.
E embora ele insistisse, recusou. Naamã disse:
– Então, que entreguem ao teu servo uma carga de terra que possa ser carregada por um par de mulas; porque de agora em diante teu servo não oferecerá holocaustos nem sacrifícios de comunhão a outro Deus que não seja “o Senhor”.
Os dois Livros dos Reis contam a história do Povo de Israel desde a morte de Davi (971 a.C.) até a destruição de Jerusalém (587 a.C.)
Esses livros são considerados livros “históricos”. No entanto, sabemos bem que Israel não escreve esses livros por interesse histórico. Para isso, existiam outros livros, frequentemente citados nestes, livros de Anais, crônicas da corte.
Os autores dos Livros dos Reis (a escola Deuteronomista) utilizam esses outros livros como materiais para sua obra, e nela fazem uma “leitura teológica” da história de Israel, mostrando como o povo prospera quando guarda a Aliança, e sofre quando se afasta de Deus.
Por essa razão, esses livros eram originalmente chamados de “os profetas anteriores”, porque sua intenção é a mesma que a dos “profetas posteriores” (aqueles que agora conhecemos como livros proféticos, Isaías, Jeremias, etc.), ou seja: ler a história à luz da Palavra e fazer com que o Povo, e os reis, cumpram a Aliança.
Até se pensa que o Deuteronômio e os livros “históricos” que o seguem (Josué-Juízes-Samuel-Reis) são uma única obra, na qual o Deuteronômio é um grande prólogo teológico que estabelece as diretrizes teológicas básicas e os outros livros as aplicam ao desenvolvimento da história do povo.
Nestes dois livros aparecem muitos “profetas”, homens de Deus que anunciam a Palavra, ameaçam o Povo com castigos de Deus se se afastarem da Lei, e o encorajam a confiar somente em Deus em momentos históricos ameaçadores.
Entre esses profetas, há dois especialmente importantes: Elias e seu discípulo Eliseu, que ocupam capítulos inteiros, de modo que se costuma falar do “ciclo de Elias” e do “ciclo de Eliseu” como partes fundamentais desses livros.
No trecho que lemos hoje, Eliseu, que é um dos profetas mais milagrosos de todo o AT, cura um personagem sírio, general e homem importante da corte, doente de uma afecção cutânea (que não é lepra propriamente dita, pois se fosse estaria excluído de toda função pública).
O relato é literariamente complexíssimo, cheio de símbolos que hoje nos passam quase despercebidos. A essência do relato, no entanto, é clara: a presença em Israel do poder do único Deus, que cura qualquer um pela ação de seu servo, o profeta. É um incentivo ao povo a reconhecer que o poder de Deus é muito maior do que o poder dos falsos deuses estrangeiros e, portanto, uma exortação a confiar nele.
2 TIMÓTEO 2, 8-13
Lembra-te de Cristo, o Senhor, ressuscitado dentre os mortos, nascido da linhagem de Davi. Este é o meu evangelho pelo qual sofro até ser preso como um malfeitor. Mas a Palavra de Deus não está presa.
Por isso, suporto tudo pelos escolhidos, para que também eles alcancem a sua salvação, obtida por Cristo Jesus, com a glória eterna.
É doutrina segura:
Se morrermos com Ele, viveremos com Ele.
Se perseverarmos, reinaremos com Ele.
Se o negarmos, também Ele nos negará.
Se formos infiéis, Ele permanecerá fiel,
porque não pode negar-se a si mesmo.
Dando por suposto o que explicamos nos domingos anteriores sobre esta carta, vemos neste trecho uma bela exortação de Paulo (mais bem colocada na boca de Paulo pelo autor) a manter a fidelidade a Cristo em tempos muito difíceis.
O texto de hoje oferece uma síntese mínima, mas densa, da fé no Ressuscitado, fonte e motivo de toda esperança. Paulo a evoca preso, na prisão, recordando os maravilhosos frutos que se seguiram dessa prisão e manifestando novamente sua confiança inabalável.
O hino final apresenta uma série de oposições que se quebram no último verso, e é um ato de fé em Cristo acima de nossa própria fidelidade: embora nós sejamos infiéis a Ele, Ele tem que ser fiel a si mesmo. Nossa confiança não reside em nossa própria justiça, mas no próprio ser de Deus Salvador.
José Enrique Galarreta, S.J.
