Fe Adulta

Dissipar a névoa

ECLESALIA

Há momentos em que guardar silêncio deixa de ser prudência para se tornar cumplicidade. O tempo em que vivemos é um deles.

Enquanto a Europa avança na aplicação do novo Pacto sobre Migração e Asilo e vários Estados endurecempolíticas de controle fronteiriço, continuam aparecendo iniciativas que buscam regularizar a situação de milhares de pessoas estrangeiras que há anos vivem, trabalham e sustentam silenciosamente nossas sociedades. Duas dinâmicas que parecem caminhar em direções opostas, mas que revelam uma mesma realidade: a Europa continua sem decidir como quer olhar o fenômeno migratório.

Não se trata de negar a complexidade da mobilidade humana nem a responsabilidade dos Estados para ordenar os fluxos migratórios. Governar as migrações exige planejamento, cooperação internacional e normas claras. Contudo, outra coisa bem distinta é permitir que o medo se converta no critério a partir do qual interpretamos as pessoas. Porque quando o medo ocupa o centro do debate público, a dignidade começa a se deslocar para as margens. E é precisamente aí que aparece uma neblina que convém dissipar.

Uma neblina cuidadosamente alimentada por relatos simplificados, manchetes interessadas e discursos que reduzem vidas humanas a cifras, expedientes ou estatísticas. Uma neblina que converte as pessoas em categorias administrativas e os rostos em percentuais. Uma neblina que favorece a polarização social porque resulta mais simples discutir sobre números do que se deixar interpelar por uma história concreta.

Talvez o maior risco deste tempo não seja unicamente o endurecimento de determinadas políticas migratórias. O risco mais profundo consiste em nos acostumarmos a olhar sem ver. A ouvir sem escutar. A falar constantemente sobre migração sem jamais atender à voz de quem a vive.

As pessoas migrantes aparecem todos os dias nos debates políticos, mas muito poucas vezes têm a oportunidade de narrar sua própria história. Outros falam por elas. Outros interpretam suas decisões. Outros utilizam seu sofrimento para sustentar posições ideológicas enfrentadas. Enquanto isso, seus relatos permaneceminvisíveis. E quando desaparecem os relatos, começa a desumanização.

Esta realidade adquire um dramatismo especial quando falamos de adolescentes que chegam sozinhos a nossas costas. Eles representam o rosto mais vulnerável desta crise ética. Não escolheram o lugar onde nasceram. Não provocaram as guerras, as perseguições, a fome ou a mudança climática. Não redigiram as leis que agora condicionam seu futuro. Porém, são quem suporta sobre seus ombros as consequências de todas essas decisões.

Há anos tenho a oportunidade de acompanhar e reconhecer muitos destes menores na Sicília. Não escrevo a partir de uma reflexão teórica nem de uma posição ideológica. Escrevo a partir da experiência de compartilhar caminho com adolescentes que atravessaram o deserto, sobreviveram ao mar e chegaram a nossas costas com uma mochila muito mais pesada do que qualquer bagagem.

Também escrevo a partir da responsabilidade que a própria legislação atribui a quem acompanha seus processos educativos e humanos. Porque a tutela de um menor estrangeiro não consiste unicamente em garantir um teto ou resolver trâmites administrativos. Significa proteger direitos, favorecer sua integração, assegurar a escolarização, o aprendizado do idioma, o acesso à saúde, a construção de vínculos, a autonomia progressiva e, sobretudo, oferecer uma presença estável que devolva confiança aí onde demasiadas vezes só existiu incerteza.

Por isso preocupa constatar como, em demasiadas ocasiões, os procedimentos administrativos terminam se prolongando durante meses enquanto a vida destes jovens permanece detida. Cada demora em uma encaminhação para um recurso adequado a sua idade e a suas necessidades educativas significa muito mais do que um atraso burocrático. Significa tempo de adolescência perdido. E o tempo perdido durante a adolescência nunca volta.

Resulta difícil compreender que existam profissionais preparados, comunidades disponíveis e estruturas especificamente pensadas para acompanhar estes menores enquanto determinados procedimentos permanecem bloqueados entre escritórios, autorizações e silencios administrativos. A proteção efetiva não pode depender unicamente da boa vontade de quem trabalha em campo. Precisa de instituições ágeis, coordenadas e capazes de responder com a urgência que exige a vulnerabilidade de um menor.

Dissipar esta neblina também significa nos atrevermos a alçar a voz. Não a partir da confrontação permanente. Não a partir da desqualificação fácil. Mas a partir da responsabilidade ética que nasce quando conhecemos os nomes, compartilhamos as histórias e compreendemos que atrás de cada expediente existe uma vida esperando uma oportunidade.

O silêncio nunca protegeu os mais vulneráveis. A história nos ensina justamente o contrário. Por isso nossas comunidades, nossas associações, nossas paróquias, nossos centros educativos e nossas instituições sociais não podem se limitar unicamente a gerir recursos. Estamos chamados também a gerar uma cultura distinta. Uma cultura capaz de desmontar preconceitos, de oferecer espaços de encontro e de recordar que a integração nunca começa com um documento, mas com uma relação.

Não é casual que o papa León XIV tenha querido situar desde o início de seu pontificado a realidade migratória no centro de seu olhar pastoral. Sua visita às Canárias, uma das grandes portas de entrada a Europa, e sua viagem a Lampedusa, convertida em símbolo universal do sofrimento no Mediterrâneo, possuem uma enorme força profética.

Não são unicamente dois destinos geográficos. São duas fronteiras morais. Dois lugares onde a Europa se contempla a si mesma.

Nas Canárias, o Papa dirigiu umas palavras que deveriam ressoar muito além das comunidades cristãs: «Quero inclinar-me ante vossa dignidade».

Não disse que se inclinava ante sua utilidade econômica. Nem ante sua situação administrativa. Nem ante sua nacionalidade. Se inclinou ante sua dignidade. E essa diferença muda tudo.

Porque a dignidade humana nunca depende de um permiso de residência, de uma fronteira atravessada ou da nacionalidade inscrita em um passaporte.

Como crentes, esta convicção não nasce de uma opção política. Nasce do Evangelho. Jesus nunca perguntou primeiro de onde vinha uma pessoa antes de se aproximar dela. Nunca condicionou a compaixão à procedência. Nunca converteu a vulnerabilidade em suspeita. Sempre olhou as pessoas antes que aos rótulos.

Talvez esse continue sendo hoje o maior desafio para nossas sociedades. Voltar a olhar pessoas. Recuperar os nomes. Escutar os relatos. Construir políticas públicas que saibam harmonizar segurança, legalidade e direitos humanos sem sacrificar nenhum destes pilares.

A Europa precisa de normas. Precisa de coordenação. Precisa de uma gestão responsável da mobilidade humana. Mas precisa, sobretudo, não perder a alma. Porque nenhuma legislação será plenamente justa se esquece o rosto concreto de quem pretende proteger.

Enquanto continuar existindo um menor esperando uma encaminhação que nunca chega.

Enquanto uma família permaneça presa entre a incerteza e a esperança.

Enquanto o Mediterrâneo continuar sendo cenário de naufrágios evitáveis.

Enquanto haja pessoas obrigadas a viver entre margens.

Continuaremos tendo a responsabilidade de dissipar a neblina.

Não para alimentar enfrentamentos.

Mas para recordar, com serenidade e firmeza, que toda sociedade termina parecendo-se à forma em que trata a quem menos capacidade tem para se defender.

E porque, ao final, a credibilidade da Europa não se medirá pela altura de suas fronteiras, mas pela profundidade de sua humanidade.

IÑIGO GARCÍA BLANCO, Irmão Marista,

SIRACUSA (ITÁLIA)

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