Fe Adulta

Atos 1, 1-11 / Efésios 1, 17-23

Festa da Ascensão


ATOS 1, 1-11

No meu primeiro livro, querido Teófilo, escrevi sobre tudo o que Jesus começou a fazer e a ensinar até o dia em que foi levado ao céu, depois de ter dado instruções aos apóstolos que escolhera sob a ação do Espírito Santo. Depois do seu sofrimento, apresentou-se a eles e deu-lhes muitas provas de que estava vivo, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando-lhes sobre o Reino de Deus. Certo dia, enquanto estava com eles, deu-lhes esta ordem:

– Não saiam de Jerusalém, mas esperem pela promessa do meu Pai, da qual lhes falei. João batizou com água, mas dentro de poucos dias vocês serão batizados com o Espírito Santo.

Então eles se reuniram ao redor dele e perguntaram:

– Senhor, é agora que vais restaurar o reino a Israel?

Jesus respondeu:

– Não vos compete saber os tempos ou as datas que o Pai estabeleceu pela sua própria autoridade. Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra.

Tendo dito isso, foi elevado às alturas enquanto eles olhavam, e uma nuvem o encobriu da vista deles. Enquanto olhavam fixamente para o céu, enquanto ele subia, dois homens vestidos de branco apareceram ao lado deles e disseram:

– Homens da Galileia, por que vocês estão aqui olhando para o céu? Este mesmo Jesus, que dentre vocês foi elevado ao céu, voltará da mesma forma que o viram subir.

Vamos revisar o conjunto de relatos e textos do Novo Testamento sobre a Ascensão para compreendê-los melhor.

MATEUS

Para Mateus, não há aparições do Ressuscitado em Jerusalém. A “despedida de Jesus” ocorre na Galileia, em um monte. Não se indica quando. O final é:

“Foi-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos.”

MARCOS (No epílogo acrescentado)

Os discípulos não vão à Galileia. A despedida ocorre no Cenáculo, em Jerusalém, no próprio domingo da ressurreição. Jesus lhes dá uma mensagem de missão semelhante à de Mateus. O texto termina assim:

“O Senhor Jesus, depois de lhes falar, foi elevado ao céu e assentou-se à direita de Deus. Então, eles saíram e pregaram por toda parte, e o Senhor cooperava com eles, confirmando a palavra com os sinais que a acompanhavam.”

LUCAS (O que lemos no texto do evangelho de hoje)

Os discípulos não vão à Galileia. A despedida ocorre no caminho de Betânia, no domingo da Ressurreição. O último parágrafo é:

“Depois os levou para Betânia e, levantando as mãos, os abençoou. E, enquanto os abençoava, separou-se deles. Eles voltaram para Jerusalém com grande alegria e estavam sempre no templo, louvando a Deus.”

JOÃO (Primeira conclusão)

A despedida ocorre no cenáculo, oito dias após o Domingo da Ressurreição. O “discurso de despedida” foi colocado oito dias antes, na aparição sem Tomé. Ele diz:

“Paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, eu vos envio. E, havendo dito isso, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, serão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, serão retidos.”

Na aparição com Tomé não há discurso de missão. Não há menção alguma à “partida” de Jesus.

Após a primeira conclusão, apresenta-se um grupo de discípulos pescando no lago de Genesaré. Jesus se manifesta, come com eles e confirma a missão de Pedro.

ATOS (A primeira leitura de hoje)

A despedida ocorre no Monte das Oliveiras, quarenta dias após a ressurreição. Há um sermão de missão e uma descrição da subida de Jesus ao céu, pelos ares, com a promessa de que voltará.

Resumindo as semelhanças e as diferenças:

Os quatro evangelhos e os Atos registram um sermão de Missão como final da mensagem de Jesus.

Mateus e João não falam da “partida” de Jesus, mas recolhem a tradição da Galileia, enquanto…

Marcos, Lucas e Atos descrevem a partida: “O Senhor Jesus, depois de falar com eles, foi levado ao céu e sentou-se à direita de Deus”. “E, enquanto os abençoava, separou-se deles.” Ambos situam a ação em Jerusalém e seus arredores. ATOS descreve a partida como uma ascensão rumo às nuvens.

O primeiro Marcos, Lucas e João (1ª conclusão) terminam no mesmo domingo da ressurreição.

O final adicionado a Marcos, Mateus e João (2ª conclusão) supõem um tempo intermediário indefinido.

Atos fala expressamente de quarenta dias.

O mesmo Paulo, em 1Cor 15, nos dá outra versão, e também diferente.

“Porque vos transmiti, em primeiro lugar, o que por minha vez recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; que apareceu a Cefas e depois aos Doze; depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais a maior parte ainda vive, e outros morreram. Depois apareceu a Tiago; mais tarde, a todos os apóstolos. E, por último, apareceu também a mim, como a um abortivo.”

Evidentemente, por tudo isso, não nos encontramos diante da simples narração de um acontecimento, mas de algo mais, do significado do acontecimento, da fé no que acontece no fundo do que se vê. Nesse sentido, não devemos esquecer algumas conclusões claras:

• Não é possível a reconstrução de uma “cronologia da ressurreição e ascensão do Senhor”. Os textos não a fornecem.

• Não é possível ignorar o caráter de “relatos dos acontecimentos daquele fim de semana” que os textos têm nas primeiras cenas, junto ao sepulcro, e o caráter de “profissões de fé em Jesus-Senhor” que os relatos vão adquirindo.

• Os textos da Ascensão são de gênero literário “Teofania”, estão escritos com a intenção de manifestar a Fé em Jesus Senhor. Seriam os textos próprios da Festa de Cristo Rei do Universo. Alguns deles têm inclusive forte caráter litúrgico.

• O fato de João os omitir – em paralelo com a omissão do mesmo João do trecho da instituição da Eucaristia – nos mostra claramente que há nos evangelistas várias maneiras de proclamar a Fé em Jesus Ressuscitado Senhor.

Em conclusão. Estamos na transição do relato de história (a morte de Jesus na cruz e seu sepultamento) e a proclamação da Fé em Jesus Senhor exaltado por Deus. E tudo isso, na perspectiva da Missão, e com a promessa do Espírito.

 

EFÉSIOS 1, 17-23

[Portanto, também eu, ao tomar conhecimento de como credes no Senhor Jesus e amais todos os consagrados, não deixo de dar graças por vós e, lembrando-vos em minhas orações, peço…]

Que o Deus do Senhor nosso Jesus Cristo, o Pai da glória, vos dê espírito de sabedoria e revelação para conhecê-lo, ilumine os olhos do vosso coração para que compreendais qual é a esperança a que sois chamados, qual a riqueza da glória que dá em herança aos santos, e qual a extraordinária grandeza do seu poder para nós, os que cremos, segundo a eficácia da sua força poderosa que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar-se à sua direita no céu, acima de todo principado, potestade, força e domínio, e acima de todo nome conhecido, não só neste mundo, mas também no futuro.

E tudo colocou debaixo de seus pés e o deu à Igreja, como Cabeça, sobre tudo. Ela é o seu corpo, a plenitude daquele que tudo completa em todos.

A carta aos efésios, provavelmente não é uma carta, mas um tratado, redigido quase certamente por um discípulo de Paulo (o estilo é muito diferente do das cartas de Paulo). É um dos textos do Novo Testamento mais ricos em termos de tema, que é fundamentalmente sobre a Igreja, nova criação e humanidade nova, edifício compacto e corpo em crescimento, povo de Deus e esposa do Messias. Predominam na carta, mais do que os aspectos jurídicos, os místicos, a força do Espírito como fonte da unidade da Igreja.

O texto de hoje pede luz para a esperança; é um escrito que faz fronteira com as imagens do Apocalipse, mas cheio de ideias, tão sublimes que escapam um pouco à explicação:

Cristo é apresentado como manifestação da força poderosa de Deus, que o faz ressuscitar e subir ao céu, acima de tudo o que foi criado;

a Igreja é a plenitude da obra de Deus, a que completa Cristo, corpo de Cristo, plenitude e consumação de tudo.

Temos talvez a tentação de reduzir os símbolos a realidades históricas: Cristo subindo como um foguete e sentando-se em um trono; a Igreja com o Papa à frente reconhecida e aclamada por todos os Estados do planeta…

Mas estes não são relatos de acontecimentos, mas sim profissões de fé. São símbolos da realidade espiritual, do triunfo de Deus e do triunfo da humanidade, pelo conhecimento e pela conversão.

 

Também pode ser lida como segunda leitura a seguinte…

HEBREUS 9, 28-48 e 10, 19-23

Cristo entrou, não num santuário construído por mãos humanas – imagem do verdadeiro – mas no próprio céu, para se apresentar diante de Deus, intercedendo por nós. Nem se oferece a si mesmo muitas vezes – como o sumo sacerdote que entrava no santuário todos os anos e oferecia sangue alheio. Se assim fosse, Cristo teria que ter sofrido muitas vezes, desde o princípio do mundo. De fato, ele se manifestou uma única vez, no momento culminante da história, para destruir o pecado com o sacrifício de si mesmo.

O destino dos homens é morrer uma única vez, e, depois da morte, o julgamento. Da mesma forma, Cristo se ofereceu uma única vez para tirar os pecados de todos. A segunda vez aparecerá, sem nenhuma relação com o pecado, para salvar definitivamente aqueles que o esperam.

Tendo entrada livre no santuário, em virtude do sangue de Jesus; contando com o caminho novo e vivo que ele inaugurou para nós através da cortina, isto é, de sua carne; e tendo um grande sacerdote à frente da casa de Deus, aproximemo-nos com coração sincero e cheios de fé, com o coração purificado de má consciência e com o corpo lavado em água pura. Mantenhamos firme a esperança que professamos, porque é fiel aquele que fez a promessa.

A carta aos Hebreus é um escrito doutrinário, proveniente de círculos próximos a Paulo. (Tertuliano diz que seu autor é Barnabé, e Clemente de Alexandria diz que foi Lucas quem traduziu para o grego o original hebraico).

Dirigida a judeus, possivelmente a judeus desejosos de se converter, baseia-se em contínuas correspondências entre o Antigo Testamento e Jesus. Jesus o grande Mediador (como Moisés), o Sumo Sacerdote (apenas comparável a Melquisedeque).

Neste texto, a morte de Jesus é ilustrada com a imagem do sacrifício anual de Expiação (o dia do Yom Kippur) do Sumo Sacerdote de Israel. Cristo não oferece vítimas, mas se oferece, e uma única vez, como na morte de todos os humanos. Cristo não entra no templo, um santuário de pedras, mas no Santuário definitivo, do qual o templo da terra não é mais do que uma imagem.

A imagem é próxima à do texto anterior: a igreja e a humanidade tendendo à plenitude, à consumação, pela ação poderosa de Deus manifestada em Jesus Cristo.

Assim, os três textos propostos para hoje movem-se entre o simbolismo e a mensagem, e, juntos, ajudam-nos a compreender a Ascensão do Senhor. Muitas vezes trivializamos a Ascensão como se fosse um episódio da vida de Jesus, uma “viagem final”. A morte na cruz, o sepulcro vazio, são acontecimentos: houve testemunhas, crentes ou não, que poderiam atestá-los. A Encarnação, a Ressurreição e a Ascensão não são acontecimentos que os olhos viram. São “acontecimentos da fé”. E seus relatos não contam o que os olhos viram, mas o que a fé acreditou.

 

José Enrique Galarreta, S.J.

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