Fe Adulta

2 samuel 5, 1-3 / Colossenses 1, 12-20

Domingo 34 do Tempo Comum


2 SAMUEL 5, 1-3

Todas as tribos de Israel foram a Hebrom ver Davi e disseram-lhe:

– Osso e carne tu és nossa; já faz tempo, quando ainda Saul era nosso rei, eras tu quem dirigia as entradas e saídas de Israel. Além disso, o Senhor te prometeu: “Tu serás o pastor do meu povo Israel, tu serás o chefe de Israel”.

Todos os anciãos de Israel foram a Hebrom ver o rei, e o rei Davi fez com eles uma aliança em Hebrom, na presença do Senhor, e eles ungiram Davi como rei de Israel.

Os dois livros de Samuel são assim chamados não porque Samuel seja seu autor, mas porque ele é seu protagonista. São obra da Escola Deuteronomista, e foram escritos por volta do reinado do rei Josias, por volta do ano 620 a.C.

Nestes livros narra-se o nascimento da monarquia de Israel. São fatos que devem ter ocorrido por volta do ano 1.010 a.C. Israel foi uma confederação de tribos comandadas esporadicamente por líderes carismáticos e ocasionais, – os “juízes” -. Mas as circunstâncias políticas levam-no a precisar de um poder central mais forte, um rei.

Diante dessa situação, o povo está dividido: alguns pensam que a fidelidade ao Senhor exige não confiar nesses critérios humanos, e continuar como estão. Outros defendem que a monarquia também pode ser querida pelo Senhor e não significa nenhuma infidelidade. O árbitro da situação será o profeta Samuel. Ele unge o primeiro rei, Saul, que falha. Depois disso, Samuel unge o segundo rei, Davi, que conseguirá a união de todas as tribos e engrandecerá definitivamente o reino. O texto de hoje apresenta o momento em que as tribos de Israel, representadas por seus anciãos, aceitam Davi como rei de todo Israel.

Estes livros são “históricos”, mas com a peculiar maneira de entender a historicidade da escola deuteronomista. Usam-se os materiais propriamente históricos, as antigas crônicas, anais e tradições, para escrever a “história sagrada”, a história da fidelidade e infidelidade de Israel, de modo que preocupa-lhes, mais do que a exata fidelidade histórica, o sentido da história vista a partir da fé, desde a óptica da “Aliança”.

A realeza será pouco a pouco uma instituição “sagrada” em Israel, e ver-se-á no rei pouco menos que a presença do Senhor à frente de seu povo. A fidelidade de Israel dependerá da fidelidade do Rei, e da conduta do Rei dependerão as bênçãos ou castigos de Deus.

Na realidade, a monarquia será um desastre, em Judá e mais ainda em Israel, o reino do norte. Apenas quatro reis (Davi, Josafá, Ezequias e Josias) serão piedosos e cumpridores da Lei. Esta será uma das razões pelas quais o Senhor deixará de apoiar seu povo, permitirá que Jerusalém e o Templo sejam conquistados e destruídos e o enviará para o exílio.

Da lembrança, mitificada, do Rei Davi nasce no povo uma ideia de Messianismo, perfeitamente viva nos tempos de Jesus: voltará um novo Davi, salvador do povo. Este Messias Davídico, de conotações claramente políticas, de triunfo do povo sobre seus inimigos, será expressamente rejeitado por Jesus.

 

COLOSSENSES 1, 12-20

Demos graças a Deus Pai, que nos tornou capazes de participar da herança do povo santo na luz. Ele nos tirou do domínio das trevas e nos transportou para o reino de seu Filho amado, por cuja sangue recebemos a redenção e o perdão dos pecados.

Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda criatura; porque por meio dele foram criadas todas as coisas, celestes e terrestres, visíveis e invisíveis; Tronos, Dominações, Principados e Potestades, tudo foi criado por Ele e para Ele. Ele é anterior a tudo e tudo subsiste por Ele.

Ele é também a cabeça do corpo: da Igreja. Ele é o princípio, o primogênito dentre os mortos, e assim é o primeiro em tudo.

Porque nele Deus quis que residisse toda a plenitude. E por Ele quis reconciliar consigo todos os seres: os do céu e os da terra, fazendo a paz pelo sangue de sua cruz.

Tradicionalmente pensa-se que esta carta foi escrita por Paulo de sua prisão em Roma, por volta do ano 63, embora a pesquisa atual duvide que a carta seja realmente de Paulo, e alguns acreditam que é de um discípulo que imita habilmente seu estilo. É dirigida aos cristãos de Colossos, cidade da Ásia Menor.

A intenção fundamental da carta é refutar alguns ensinamentos errôneos, muito provavelmente de origem gnóstica, que começavam a circular por aquelas comunidades.

Após as saudações habituais, a carta começa com um Hino a Cristo, que é o que lemos hoje, um dos trechos mais complexos e profundos da cristologia de Paulo. Acredita-se que este possa ser um hino litúrgico, que Paulo aproveita aqui para expor a doutrina básica sobre Cristo.

São usadas poderosas imagens retiradas das Escrituras:

• Como introdução, a oposição LUZ — TREVAS, a ação de Deus como libertador que tira das trevas para a luz e conduz ao reino. É como um resumo de toda a mensagem do livro do Êxodo. Cristo é aquele que nos tira do pecado e nos conduz à Vida.

Segue-se depois uma série de “atributos cósmicos” de Cristo como encarnação da Sabedoria de Deus, que se conectam diretamente com a maneira de conceber a Deus dos Livros de Sabedoria de Israel.

• Cristo é IMAGEM do Deus invisível. Lembramos que assim é o ser humano no primeiro relato da criação, em Gênesis 1.
• Primogênito: irmão de sangue, mas o primeiro, o herdeiro da Promessa.
• Cristo é a encarnação da Sabedoria de Deus, anterior a tudo, força criadora, sentido de tudo.

E termina com uma interpretação eclesial de Cristo:

• É a cabeça deste corpo que é a Igreja.
• O Primeiro a ressuscitar dentre os mortos.
• O ponto de reconciliação, o encontro definitivo da humanidade e da criação com Deus.

Encontramo-nos com uma cristologia um tanto desconcertante. Tudo o que se diz é precioso, mas surgem-me duas questões: a primeira, refere-se a Jesus de Nazaré? Nesse caso parece um tanto exagerado, dá-se prioridade à sua natureza divina, com afirmações aplicáveis apenas ao Verbo de Deus: a segunda, de onde vem toda essa teologia? Não parece que tudo isso possa ser deduzido dos relatos evangélicos, mas sim que é uma amostra da característica evolução da teologia a partir do final do século I, que se baseia mais na especulação racional do que na Palavra do Evangelho.

 

José Enrique Galarreta, S.J.

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