A população cubana continua a viver as consequências da crise energética, que agrava os diversos problemas que afligem a sociedade. “Estamos aqui. E não de braços cruzados”, diz aos meios vaticanos o padre Ariel Suárez Jáuregui, secretário Adjunto da Conferência de Bispos Católicos de Cuba e pároco do Santuário Diocesano e Basílica Menor de Nossa Senhora da Caridade do Cobre em Havana.
“Os preços dos alimentos estão a aumentar. Têm falta de medicamentos, os serviços médicos estão a diminuir e as cirurgias destinam-se apenas àqueles cujo risco de vida é iminente. As dificuldades em aceder a água potável estão a aumentar, porque há muitas pessoas que dependem dos camiões-cisterna para aceder à água e, sem combustível, não conseguem chegar”, descreve o Padre Suárez.
Tal situação coloca a Iglesia pobre no meio dos pobres a oferecer uma pastoral da caridade e consolo: “é no âmbito da caridade onde talvez estamos nos renovando e crescendo continuamente, na medida em que vemos necessidades crescentes e experimentamos a interpelação do Senhor para assisti-lo nos pobres”, afirma, recordando algumas das obras frequentes de assistência -com grande dificuldade- aos mais vulneráveis.
A Igreja em Cuba agradece a proximidade paternal do Papa Leão XIV durante este tempo, a quem esperava encontrar na visita ad limina que tiveram que adiar: “Estamos muito gratos pelo afeto que o Papa manifestou por este povo e esta Igreja. A voz do Santo Padre amplificou para o mundo a voz, dolorida e esperançada, do povo cubano“.
O padre do Santuário Diocesano e Basílica Menor de Nossa Senhora da Caridade do Cobre em Havana, espera que durante esta Quaresma e em meio às diversidades o povo cubano olhe com esperança a Jesus: “Que a dor do meu povo, que é também a minha dor, não nos faça ressentidos, violentos, feridos. Que possamos amar sempre, proclamar a vitória do amor, dar testemunho do amor do Senhor”, compartilha o padre Ariel Suárez Jáuregui sua oração.
Pergunta. Estamos vivendo o tempo litúrgico da Quaresma, que é um caminho à Páscoa, por qual motivo de esperança para os cristãos. Sabemos que em Cuba nas últimas semanas tem tido maiores complicações, ¿Como enfrenta a Igreja esta realidade à luz da esperança cristã?
Resposta. Justo porque a Igreja vive da confiança nas promessas de Cristo, ali onde se pode, seguimos anunciando o Evangelho, celebrando os Sacramentos, dando catequese aos meninos, visitando os doentes e os presos, preparando os adolescentes, jovens e adultos no catecumenato ou em diversos âmbitos formativos. Os matrimónios continuam a sua preparação e os workshops de vida sucesso em pareja. Os nossos Centros de Formação se mantêm trabalhando. Multiplicam-se as iniciativas caritativas nas paróquias e comunidades.
En Quaresma, há oportunidades para fazer retiros, celebrações penitenciais e a recitação da Via Sacra, particularmente às sextas-feiras. Nas zonas rurais ou nas mais afastadas do centro paroquial, certamente houve variações nas atividades habituais, porque muitos sacerdotes ou catequistas não conseguem chegar a essas zonas afastadas, por não terem combustível para se deslocarem. Nem todos são jovens e fortes para se locomoverem de bicicleta e percorrer quilômetros sob o sol tropical. Alguns caminhos, além disso, são intransitáveis. E voltar à noite sem eletricidade também é perigoso. Fazemos o que podemos. Mas estamos aqui. E não de braços cruzados.
P. En uma recente mensagem de janeiro de 2026, os bispos alertavam sobre o risco de um caos social e de violência diante das restrições de ingresso de petróleo ao país. Qual é a situação atual, e as preocupações do povo cubano?
A situação atual é francamente difícil. Vemos como diminui o transporte público e privado nas ruas e estradas. Povos e cidades parecem desertos depois da queda do sol. O lixo transborda nas ruas de Havana e impedem literalmente o passo aos transeuntes e os escassos veículos que conseguem circular. Cresce o número de pessoas pobres, andarilhas, idosos sozinhos e desamparados. Também vemos adolescentes e jovens que se enrolam nas drogas. Reduzem-se horários e dias de trabalho e estudo. As pessoas que trabalham na área do turismo têm o temor real de perder seus empregos. Aumentam os preços dos alimentos.
Medicamentos estão em falta, os serviços médicos estão diminuídos e as cirurgias estão restritas apenas àqueles cujo risco de vida é iminente.
R. Aumentam as dificuldades para aceder à água potável, porque há muitas pessoas que dependem dos camiões cisterna para aceder à água e sem combustível, não conseguem chegar. Os que têm mais recursos, estão rapidamente a instalar fontes de energia renováveis nas suas habitações e negócios. Ou a comprar veículos e outros meios de transporte que não dependem do combustível. O povo cubano vive esta situação com dor e tristeza. Sente que já sofreu demasiado nas últimas décadas e aspira a outra coisa, a uma vida digna e feliz nesta terra. Há gente que se torna violenta e deixa aflorar toda a codicia, o egoísmo e a ambição que levam dentro.
Outros, por outro lado, estão dando um testemunho belo e luminoso de generosidade, de fraternidade e altruísmo, em todos os âmbitos da vida da nação. Ao mesmo tempo, há um sentimento generalizado de que “algo tem que passar, porque assim não se pode viver”.
P. O Papa Leão XIV em um Ángelus faz algumas semanas, manifestava sua preocupação por Cuba e convidava a promover o diálogo e evitar ações que aumente o sofrimento do povo. O que tem significado para a Igreja cubana esta proximidade do Santo Padre?
R. As palavras do Santo Padre no Ângelus de 1 de fevereiro foram recebidas pela Igreja em Cuba como um gesto paternal de comunhão e apoio. O Papa sublinhou nas suas palavras que, através de um “diálogo sério e eficaz” se procure aliviar “o sofrimento do querido povo cubano”. Leão XIV quis também manifestar o seu apoio aos Bispos de Cuba que, a 31 de janeiro, tinham publicado uma Mensagem importante e profética, face ao agravamento da situação do país. Estamos muito gratos pelo afeto que o Papa manifestou por este povo e esta Igreja. A voz do Santo Padre amplificou para o mundo a voz, dolorida e esperançada, do povo cubano.
P. A situação leva até os Bispos a adiar a sua viagem a Roma. Quais são as principais ações pastorais e sociais nas dioceses e paróquias?
As ações pastorais são aquelas que a Igreja normalmente realiza em todo o mundo. Atualmente, entre nós, essas ações de sempre, têm um matiz especial. Esse matiz está dado, diria eu, pela proximidade, compaixão e ternura, das quais o Papa Francisco tanto falou. Nossa Igreja, através de seus agentes pastorais, está dedicando tempo e recursos a escutar muito, visitar, acompanhar, ao ministério da consolação. É no âmbito da caridade onde talvez estejamos renovando e crescendo continuamente, na medida em que vemos necessidades crescentes e experimentamos a interpelação do Senhor para assisti-lo nos pobres.
R. Em muitas paróquias, estão a ser organizados refeitórios para idosos ou pessoas vulneráveis. Noutras, cozinha-se e leva-se a comida para as casas. Também se está a distribuir comida já preparada a pessoas que vivem nas ruas, parques ou praças. Isto é feito também por movimentos como o movimento parroquial Juan XXIII, a comunidade de San Egidio ou a fraternidade de Comunhão e Libertação no que eles chamam a “caritativa”. Irmãos e Cáritas de outros países ajudam em muitos casos, para manter e levar a cabo estas obras.
Aparte, para destacar o heroico, silencioso e extremamente generoso serviço dos religiosos e religiosas que têm a seu cargo lares de idosos ou de doentes mentais, que devem enfrentar todas as dificuldades do país, muitas vezes com a ausência de empregados, porque não conseguem como chegar ao trabalho, por falta de transporte.
P. Quais são esses testemunhos particulares que podemos compartilhar de trabalho de atenção aos mais pobres em meio às dificuldades gerais…?
R. Na paróquia onde sirvo como pároco há 11 anos temos alguns serviços para os irmãos mais necessitados: todas as quartas-feiras preparamos almoço para cerca de 150 idosos. Todas as quintas-feiras à tarde levamos leite ou chocolate com aveia e um lanche e um pouco de proteína para 100 pessoas em situação de rua. Também, dois sábados por mês cozinhamos e levamos almoço para os vulneráveis.
R. Destaco a alegria e o amor com que trabalham os voluntários em todos estes serviços. Os voluntários têm problemas e necessidades como os demais. Mas entregam ao Senhor e aos seus irmãos o seu tempo, a sua energia, partilham os seus bens. E o fazem com um sorriso, e tratam com muito respeito os seus irmãos mais pobres. Falo desta paróquia porque é o que mais conheço. Mas sublinho que coisas como estas, são feitas em muitas paróquias de toda Cuba. E também há iniciativas muito belas em comunidades cristãs não católicas. Damos graças a Deus por tudo o que ha suscitado em nós nestes tempos tão duros. Que o Senhor nos ajude a não nos cansarmos de fazer o bem.
Qual é a sua mensagem perante a realidade que Cuba está a viver, a sua oração no caminho para a Páscoa?
R. Na Quaresma nos colocamos sempre diante do desafio de um Deus que escolheu entregar tudo, entregar-se a si mesmo até o fim. Amar até o fim. Ficarmos no porquê da cruz, do sofrimento e da dor…é uma tentação recorrente. Jesus nos ensinou o para quê. Também quando olhamos o sofrimento prolongado do povo cubano e de tantos povos da terra, temos que olhar ao Senhor. Jesus nos ensinou a amar, a entregar a vida e assim encheu a dor de sentido e transitou para a manhã luminosa da Páscoa. Que a dor do meu povo, que é também a minha dor, não nos faça ressentidos, violentos, feridos. Que possamos amar sempre, proclamar a vitória do amor, dar testemunho do amor do Senhor.
Como disse o Papa Leão XIV na sua primeira Mensagem Urbi et Orbi da Páscoa passada: O Ressuscitado demonstrou que “o mal não prevalecerá”. Essa é a razão do nosso amor e da nossa esperança. Muito obrigado.
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