Fe Adulta

Atos 6, 1-7 / 1 pedro 2, 4-9

Naqueles tempos, ao crescer o número de discípulos, os de língua grega reclamaram contra os de língua hebraica, dizendo que no atendimento diário não cuidavam de suas viúvas…

DOMINGO 5º DA PÁSCOA

ATOS 6, 1-7

Naqueles tempos, ao crescer o número de discípulos, os de língua grega reclamaram contra os de língua hebraica, dizendo que no atendimento diário não cuidavam de suas viúvas.

Os apóstolos convocaram o grupo dos discípulos e lhes disseram:

– Não nos parece bem descuidar da Palavra de Deus para nos ocuparmos da administração, portanto, irmãos, escolhei sete dentre vós, homens de boa reputação, cheios de espírito de sabedoria, e nós os encarregaremos desta tarefa; nós nos dedicaremos à oração e ao serviço da palavra.

A proposta pareceu bem a todos e escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Simão, Parmenas e Nicolau, prosélito de Alexandria. Eles foram apresentados aos apóstolos e eles lhes impuseram as mãos orando.

A Palavra de Deus se espalhava, e em Jerusalém crescia muito o número de discípulos; até mesmo muitos sacerdotes aceitavam a fé.

Nos relatos da primeira igreja nos é apresentada uma igreja familiar, na qual a autoridade dos Apóstolos não se exerce de modo monárquico, nem mesmo colegiado. É a comunidade que toma as decisões.

Neste texto aparece a designação dos sete primeiros diáconos pela comunidade, e a imposição de mãos pelos apóstolos. Estes relatos dão origem a múltiplas considerações sobre as formas de exercício da autoridade na igreja. Indicaremos brevemente apenas duas:

1)

A imagem um tanto idílica que às vezes aparece em Atos, fica um tanto traída nesses detalhes. Havia tensões e dificuldades, havia diferenças de opinião…

E existia na comunidade o germe de uma profunda crise que se mostrará mais adiante: os judaizantes e os helenizantes, dois grupos claramente diferenciados, uns mais tradicionais, ainda apegados à Lei de Moisés: sua cabeça visível será Tiago, o irmão do Senhor. Outros mais abertos, que entenderão A Nova Notícia independentemente da Antiga Lei: seu paladino no futuro será Paulo.

O confronto dessas duas tendências ocorrerá no chamado “Concílio de Jerusalém”, que é relatado no Livro dos Atos no capítulo 15, e no capítulo 2 da carta aos Gálatas. Vemos, portanto, que Lucas seleciona e interpreta os eventos, para deixar clara a presença do Espírito, mas é fiel às suas fontes, embora o que conta não seja perfeito.

2)

Em uma igreja tão pequena, a autoridade é exercida de maneira paternal, e não substitui a comunidade. Os Apóstolos apresentam iniciativas à comunidade e a ela “parece bem” e aprova, e é a comunidade que escolhe os diáconos.

Ao ler essas coisas sentimos uma forte nostalgia daquela organização eclesiástica; gostaríamos que as coisas também pudessem funcionar assim hoje, que fossem os fiéis a escolher….

Há, no entanto, outra consideração a fazer: as formas de governo da Igreja atual não são as únicas possíveis; historicamente a Igreja também funcionou de maneiras diferentes, menos monárquicas, e “os primeiros bispos” deixaram claro que preferiam não se encarregar dos aspectos organizacionais da igreja, para poderem se dedicar “à oração e ao serviço da Palavra”.

(Haveria outro tema de meditação, muito interessante, mas que apenas vamos enunciar: a última frase: “até mesmo muitos sacerdotes aceitavam a fé”. Ou seja, são precisamente os sacerdotes os que mais dificuldades tinham para aceitar Jesus… (Deixamos apontado o tema, sem desenvolvê-lo)

 

1 PEDRO 2, 4-9

Ao vos aproximardes do Senhor, a Pedra viva rejeitada pelos homens, mas escolhida e preciosa diante de Deus, também vós, como pedras vivas, entrais na construção do templo do Espírito, formando um sacerdócio sagrado para oferecer sacrifícios espirituais que Deus aceita por Jesus Cristo.

Diz a Escritura:

“Eu coloco em Sião uma pedra angular,
escolhida e preciosa;
quem nela crer não será decepcionado”.

Para vós, os crentes, é de grande valor, mas para os incrédulos é a pedra que os construtores rejeitaram; esta se tornou pedra angular, pedra de tropeço e rocha de escândalo. E eles tropeçam por não crer na palavra; esse é o seu destino.

Vós, pelo contrário, sois uma raça escolhida, um sacerdócio real, uma nação consagrada, um povo adquirido por Deus para proclamar as façanhas daquele que vos chamou a sair da escuridão e entrar na sua luz maravilhosa.

No trecho que lemos hoje, continua-se a aprofundar a teologia da igreja. Um povo de sacerdotes, que oferece sacrifícios espirituais. Uma nação consagrada por Deus, que passou das trevas à luz, assentada em Cristo, a primeira pedra do edifício. A fé em Jesus é que constitui a igreja. Aceitar o crucificado-ressuscitado, esta é a pedra angular, que define a igreja como uma nova maneira de ser e de viver em relação com Deus e com os homens.

Essa é a Pedra em que tropeçam, por exemplo, os sacerdotes de Israel, que parecem ter mais dificuldades do que ninguém em aceitar a Jesus. Aponta-se aqui o tema de Jesus como pedra de escândalo. Jesus crucificado, loucura para os gregos, escândalo para os judeus, força de salvação para os crentes, como diz Paulo em 1 Coríntios 1.

Neste texto, faz-se uma comparação velada, mas clara, da igreja com o povo de Israel, tal como aparecia no Livro do Êxodo: este é o Novo Povo, chamado das trevas à luz, “da escravidão ao serviço”, nação consagrada, adquirida por Deus, destinada à Missão, a proclamar as façanhas do Senhor, a ser mensageiro da Salvação.

 

José Enrique Galarreta, S.J.

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