DOMINGO 16 TEMPO ORDINÁRIO. CICLO A
Mateus resume a crise que atravessou sua comunidade no final do século I em cinco perguntas às quais responde com sete parábolas. No domingo passado vimos a primeira (por que nem todos aceitam a mensagem de Jesus?), à qual respondia a parábola do semeador. Neste domingo são levantadas outras duas perguntas (que atitude adotar diante daqueles que não aceitam a mensagem? e este pequeno tem futuro?), às quais se responde em três parábolas. A primeira delas (o trigo e o joio) Mateus deve tê-la considerado difícil de entender, e por isso oferece sua explicação. No entanto, ele não o faz imediatamente. Conta três parábolas seguidas e mais tarde, quando os discípulos chegam à casa, interrogam Jesus e este esclarece seu sentido. Em contrapartida, as parábolas terceira (grão de mostarda) e quarta (fermento) carecem de explicação no evangelho.
A liturgia permite, por motivos pastorais, limitar-se à parábola do trigo e do joio, omitindo sua explicação e as outras duas.
Que atitude adotar com aqueles que não vivem a mensagem?
A parábola pode ser lida de diversas perspectivas, dependendo se pensamos que o campo é o povo de Israel, a comunidade cristã ou o mundo inteiro. Como esta parábola só é contada por Mateus, vamos vê-la primeiro do ponto de vista da sua comunidade, seriamente confrontada com os judeus.
1ª hipótese: O campo é o povo de Israel
Nela, o Senhor plantou boa semente (os cristãos). Mas o inimigo também plantou joio (os fariseus e outros inimigos da comunidade). A tentação de qualquer um dos dois grupos é decidir por conta própria e risco quem é trigo e quem é joio. Paulo, por exemplo, antes de se converter, pediu permissão às autoridades de Jerusalém para perseguir os cristãos. Também a comunidade cristã corre o risco de tentar acabar com aqueles que não fazem parte dela ou não a tratam como consideram justo. Assim aconteceu quando uma aldeia da Samaria não acolheu Jesus e dois discípulos, João e Tiago; eles propuseram-lhe fazer descer um raio do céu para acabar com todos (Lc 9,51-56). Com esta parábola, Mateus faz uma exortação à calma, a deixar a Deus a decisão no momento final.
2ª hipótese: O campo é a comunidade cristã
A parábola também poderia ser entendida dentro da comunidade cristã (esta seria o campo), onde há pessoas que respondem ao evangelho (trigo) e pessoas que não parecem viver de acordo com ele (joio). A mensagem é a mesma neste caso. Embora as coisas pareçam claras, é fácil que ao arrancar o joio se leve junto o trigo. Porque qualquer um de nós, por mais preparado que se considere teológica e moralmente, pode errar. Não são raros os casos de pessoas condenadas pela Igreja que acabaram não só sendo reabilitadas, mas também canonizadas.
3ª hipótese: o campo é o mundo
Finalmente, a parábola pode ser interpretada em um contexto mais geral, onde o campo é o mundo, a boa semente são os cidadãos do Reino e o joio são os secuazes do Mal. Nesta linha orienta-se a explicação dos versículos 36-43, que pode ser omitida por motivos pastorais.
Em qualquer uma destas três hipóteses (todas válidas), Jesus adverte contra o perigo de pagarem justos pelos pecadores. É preferível ter paciência e deixar a justiça a Deus, o único que pode emitir um veredito exato, sem temor de errar.
A atitude de Deus, modelo de moderação e indulgência
A primeira leitura, tirada do livro da Sabedoria, move-se nesta linha de bondade e tolerância, colocando Deus como modelo. Um Deus que o poder impulsiona, não para castigar mas para perdoar, que governa com moderação e indulgência, e que sempre dá um voto de confiança ao pecador, esperando que ele se converta.
[O que segue pode ser omitido]
Este pequeno tem algum futuro?
Este é o outro tema tratado pelas parábolas de hoje. A comunidade de Mateus é pequena. As outras comunidades também. Já se passaram cinquenta anos da morte de Jesus; embora o cristianismo esteja se espalhando pelo Império Romano, seus membros representam uma minoria. Que futuro tem este grupo tão pequeno? Que futuro tem a igreja atual, que carece da influência e do poder de alguns anos atrás? Mateus responde com duas parábolas: a do grão de mostarda e a do fermento. Ambas coincidem em ser algo pequeno, mas mais importante do que pode parecer à primeira vista.
O grão de mostarda
Esta parábola se compreende melhor quando se conhece uma parábola do profeta Ezequiel que utiliza Jesus como modelo. No início do século VI a.C., quando o povo de Israel estava deportado na Babilônia, para expressar que sua sorte mudaria e seria esplêndida, Ezequiel conta o seguinte:
Tomarei uma guia do broto do cedro alto e coroado;
do ramo principal arrancarei um enxerto
e o plantarei num monte elevado e proeminente,
o plantarei no monte coroado de Israel.
Ele dará ramos, tornará-se frondoso
e chegará a ser um cedro magnífico;
todos os pássaros nele farão ninho,
à sombra de seus galhos todos os pássaros farão ninho. (Ez 17,22-23).
Jesus aceita a imagem da árvore e a ideia de que ela serve para acolher todas as aves do céu. Mas introduz uma mudança radical: não escolhe como modelo o cedro alto e coroado, mas sim o modesto arbusto de mostarda, que, quando cresce, «sobe acima dos vegetais». É um ataque cheio de humor e ironia ao triunfalismo. O importante não é que a árvore seja grandiosa, mas que possa cumprir sua função de acolher os pássaros. Para a comunidade de Mateo era uma excelente lição, e também deve ser para as nossas tentações de triunfalismo eclesial.
O fermento
Algo parecido ocorre com a parábola do fermento. É usado em pequena quantidade, mas cumpre sua função, faz a massa levedar. A tentação da comunidade cristã é querer ocupar muito espaço, ser massa, chamar a atenção pelo seu volume, pelo número de membros. Jesus diz que o importante é a função de fermentar a massa.
Resumo
Mateo oferece uma explicação da realidade (semeador) e um chamado à serenidade (trigo e joio) e a confiar em algo que tem começos tão modestos (mostarda e fermento). No próximo domingo, outras três parábolas completarão este ensinamento.
