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Sobre o demônio. da a demonologia à antropologia

Penso que falar do demónio sempre tem provocado desconforto e continua a provocá-lo: para alguns é medo, para outros, fascínio, para outros respeito, para outros rejeição, para muitos mais, silêncio.

Não é estranho: durante séculos, o mal tem sido vivido como algo tão real, tão doloroso e tão desconcertante, que o ser humano necessitou explicá-lo, e não só explicá-lo, mas dar-lhe rosto, nome e intenção. Assim nasceu a compreensão do demónio: não como capricho, mas como resposta humana a uma experiência que, com os esquemas com que se contava no seu momento, não se lhe encontrava explicação suficiente nos esquemas do homem.

Estas linhas não nascem para negar o mal — isso seria ingénuo — nem para suavizar a sua gravidade. Nasce de perguntas profundas e incómodas: o que estamos a dizer realmente quando falamos do demónio? Que imagem de Deus e do ser humano se desprende dessa maneira de compreender a maldade?

Se, como afirma o evangelho, “a Deus ninguém o viu jamais” (João 1:18), então toda reflexão sobre Deus, o mal ou o demónio passa necessariamente pela experiência humana, a história e a consciência. Pensar o mal fora desse âmbito corre o risco de nos tranquilizar demasiado cedo, deslocando para fora o que talvez devêssemos olhar com honestidade dentro.

Este escrito propõe um deslocamento sereno: da demonologia à antropologia; não para diminuir o mal, mas para tentar compreendê-lo de outra maneira, mais a sério; não para diluir a responsabilidade, mas para assumi-la plenamente dentro da realidade humana e não para perder a Deus, mas para libertá-lo de imagens que o tornam, certamente, moralmente problemático.

Esta compreensão não pretende corrigir a fé do passado nem desautorizar as formas com que outras gerações compreenderam e interpretaram o mal. Busca, mais bem, lê-las desde uma consciência histórica que sem dúvida cresceu em compreensão. A fidelidade à tradição não consiste em repetir as suas respostas elaboradas há séculos, mas em assumir a mesma pergunta com a lucidez que o tempo, e o esforço por compreender melhor, nos deu.

I              O mal: uma experiência humana universal

O mal não é uma teoria; é uma experiência real para todos. Aparece na cotidianidade: a violência, a injustiça, a traição, o abuso… Na crueldade que confunde precisamente porque contradiz o que intuímos como o mais humano que possuímos. Não há cultura nem época que não tenha tido que enfrentá-lo e racionalizá-lo e explicá-lo com seus esquemas e palavras.

Ante essa experiência que nasce com o homem mesmo, o ser humano não só reacionou moralmente, mas também intelectualmente. Buscou explicações, e quando a razão disponível não alcançou, apareceu o linguagem simbólico: mitos, narraciones, personificações. Não como a elaboração de um engano, mas como o intento mais honesto possível de dizer o incompreensível, o indecível.

A figura do demónio surge nesse contexto. Personalizar e objetivar o mal permitiu, durante séculos, dar coerência narrativa a uma realidade que nos supera: assinalar uma causa, preservar a convicção primordial de que o bem era originário e desejável, e que a origem não era o mal.

Mas toda explicação está condicionada pela cultura que a produz. A demonologia não caiu do céu já terminada: foi-se elaborando historicamente, dialogou com cosmovisões concretas e refletiu os limites de compreensão de cada época.

Reconhecer isto não trivializa o mal, pelo contrário: obriga-nos a perguntar se essas categorias herdadas ainda ajudam hoje ou, sem que nos apercebamos, começam a obscurecer mais a nossa busca de Deus do que a iluminam.

II            O demónio na história: do símbolo à materialização

Todas as culturas antigas desenvolveram figuras do mal: forças adversas, espíritos hostis, deuses rivais. O mito —compreensão no seu momento histórico— não falsifica a realidade; tenta explicá-la quando ainda não há linguagem conceptual suficiente.

No âmbito bíblico, esta evolução é visível: Israel não nasceu com uma demonologia desenvolvida. Em suas etapas mais antigas, o mal era compreendido dentro da ação divina e da história humana. Com o tempo —e certamente também sob influências culturais externas— foram aparecendo figuras mais definidas, até chegar ao Satã como instigador, acusador e opositor.

Esta compreensão paulativa e desenvolvimento conceitual não deve ser lida como revelação progressiva de dados sobre o “mundo espiritual”, mas como elaboração simbólica crescente da experiência do mal no homem. À medida que a teologia, a antropologia e a consciência moral se afina, também o fazem suas explicações.

O problema surge quando essas explicações, essa linguagem simbólica, se absolutiza; quando o que nasceu como tentativa de compreensão se torna explicação fechada, imune a revisão e desconectada da experiência humana real.

Aqui aparece uma paradoxo: quanto mais detalhadas se tornam as descrições do demônio, mais evidente resulta seu caráter conjetural. Fala-se com precisão sobre aquilo que, por definição, não pode ser experimentado, observado ou verificado.

E esta literalização tem consequências: quando o mal se situa fora do homem, a responsabilidade dilui-se e o ser humano aparece mais como campo de batalha —Deus que nos cuida e o demónio que nos pretende derrubar…— que como sujeito responsável da sua própria história.

III           Jesus e o deslocamento ao homem

Jesus não vive fora do seu contexto cultural; partilha a linguagem do seu tempo. Por isso fala de demónios e espíritos, mas falar com a linguagem disponível —na sua época e para Ele— não significa pensar da mesma forma.

Jesus não teoriza sobre o demônio, não desenvolve uma demonologia e não descreve hierarquias nem naturezas espirituais. Jesus possivelmente não pode se desprender totalmente da interpretação de seu tempo, mas busca compreender melhor e põe o acento no homem.

O que ele faz é deslocar a compreensão da origem do mal.

Frente a uma compreensão que situa a origem do mal fora do homem, Jesus afirma algo de enorme alcance antropológico: “Do coração do homem saem os maus pensamentos…” (Mateus 15:19)

Com esta frase, o mal deixa de se explicar primariamente como influência externa e passa a ser compreendido como realidade que emerge do interior humano. Não se minimiza o mal: se torna pessoal e nos torna responsáveis, não vítimas.

Incluso, nos relatos bíblicos de expulsão de demônios, o centro não é a entidade expulsada mas a restauração da pessoa. Jesus não dramatiza o mal nem o converte em espetáculo. Retorna ao homem concreto a palavra, a dignidade, a possibilidade de reintegrar-se à comunidade.

Visto assim, os chamados exorcismos não provam uma demonologia literal, mas revelam algo mais profundo: a fragilidade humana. Muitas dessas experiências podem ser compreendidas hoje como expressões extremas de sofrimento, trauma ou desintegração pessoal, nomeadas com a compreensão e linguagem disponível em seu tempo.

Jesus não lhe interessa tanto saber “¿que espírito é?”, mas sim “¿o que te acontece a ti…?”

Não combate inimigos invisíveis: sana a realidade histórica da pessoa. Esta leitura não pretende esgotar o mistério do sofrimento extremo, mas evitar que se explique de maneira precipitada mediante categorias que deslocam a atenção do cuidado, o acompanhamento e a cura real da pessoa.

IV           Do do demónio ao homem: responsabilidade e liberdade

Quando o mal deixa de ser explicado como ação ou influência de um agente externo, emerge uma questão central: a responsabilidade humana.

Este deslocamento não encerra o ser humano em si mesmo nem o deixa só frente à sua fragilidade. Reubicar o mal no âmbito da liberdade humana não significa expulsar a Deus do horizonte, mas compreender-lo de outro modo: não como omisso; rival, tentador ou estratega do mal, mas como fundamento silencioso e constante do bem que sustenta a liberdade desde dentro. Deus não substitui a responsabilidade humana; a torna possível, a torna real.

Durante séculos, a figura do demónio tem cumprido uma função ambígua: protegia a imagem de Deus, mas ao mesmo tempo aliviava o peso moral do homem: o mal podia ser explicado como tentação ou engano diluindo a responsabilidade pessoal.

O preço tem sido alto: a liberdade e responsabilidade, que é o centro mais valioso da pessoa, ficou enfraquecida.

O deslocamento antropológico propõe outra leitura: se o mal nasce do coração humano, então a liberdade não é um campo de batalha do demónio contra a nossa consciência, mas o lugar mesmo da decisão pessoal, livre e responsável.

Isto não implica uma culpabilização que nos esmaga e paralisa, pelo contrário: a responsabilidade, entendida como a nossa capacidade real de responder, liberta-nos. A culpa imobiliza; a responsabilidade abre caminhos, impulsiona-nos para a nossa plenitude.

O mal deixa de ser uma fatalidade inexplicável e torna-se tarefa humana e quotidiana. Não algo que acontece “apesar de nós”, mas sim algo que acontece desde a nossa natural liberdade e responsabilidade: acontece “em nós e com nós”.

V            O mal como processo humano

O mal não é uma substância nem uma entidade, é uma forma falhada de relação: é uma possibilidade humana.

Não existe por si só, mas como distorção ou ausência de um bem possível. Aparece em processos mal resolvidos, em feridas não integradas, em imaturidades próprias do processo do homem.

Pensar o mal assim não o trivializa: torna-o humano e transformável. Se fosse uma força externa autônoma, só caberia resisti-la. Se é parte de um processo humano ferido, pode ser trabalhado e curado.

As características atribuídas ao demônio — engano, divisão, acusação — não são alheias ao homem: São, na realidade, possibilidades humanas não integradas. A figura do demônio funcionou, muitas vezes, como espelho simbólico dessa sombra.

Compreendido assim, a vida do homem não é uma luta contra o mal, mas um processo livre, responsável —e falível— de realização pessoal.

VI           Bondade original e bem estrutural

Se o mal não é de nenhuma maneira o fundamento do ser, então o ponto de partida não é a corrupção, mas a bondade.

Falar de bondade original não é idealizar o homem, é afirmar que o ser é bom em sua raiz, e que o mal não prova uma criação falhada, mas uma criação livre e em processo.

O mal não existe porque o homem seja mau, mas porque ainda não está plenamente feito: É livre, inacabado e chamado a crescer.

De aqui, a ética deixa de ser vigilância obsessiva e se converte em pedagogia do bem. Não se trata de extirpar uma suposta corrupção originária, mas de acompanhar processos de maturação da pessoa, de cada um de nós.

VII         Deus como Pai, não como estrategista do mal

Este deslocamento afeta diretamente a imagem de Deus. Um Deus que permite a ação de um demônio poderoso para “provar” seus filhos termina, inevitavelmente, sendo moralmente um deus problemático; um pai que ama entrañavelmente seus filhos, não educa mediante a prova ou o dano.

Este deslocamento não é confortável nem imediato. Assumir a responsabilidade sem recorrer a culpáveis externos exige uma maturidade que nem sempre estamos dispostos a sustentar. Mas uma fé adulta não se mede pela tranquilidade que oferece, mas pela verdade que permite habitar

Jesus sempre apresenta a Deus como Pai, e isto não é metáfora piedosa, mas chave ontológica e antropológica: a relação não se funda no mandato, mas num vínculo real, um vínculo que nos constitui.

O amor do homem por Deus não nasce da obrigação, mas do reconhecimento de ter sido amado primeiro por Ele. Uma fé madura não precisa de milagres para crer nem demónios para se sustentar. Apoia-se na confiança, não no medo: temos um Pai real que se comporta como um pai real.

Este deslocamento não é apenas antropológico, mas também teológico.

VIII       Estruturas, religião e responsabilidade histórica

O mal não é apenas individual, mas “incorpora-se” em estruturas humanas —económicas, culturais e religiosas— que em muitos casos normalizam a injustiça, de maneira que o homem se encontra imerso num ambiente que não facilita nem conduz ao bem.

Aqui o conceito de “estruturas de pecado” tem sentido, sempre que não se converta em nova desculpa. Nem o “demónio pessoal” nem o “demónio sistémico” podem substituir a responsabilidade humana.

Uma religião que desloca o mal para uma força exterior  corre o risco de desactivar a consciência crítica, mas uma religião madura ilumina a realidade para transformá-la com a consciência e liberdade humana, não para espiritualizá-la.

Do medo à maturidade

Este texto não pretende fechar o mistério do mal, mas viver e habitar o de outra maneira.

Retirar ao demónio do centro não empobrece a compreensão do mal: a torna mais humana. Devolve ao homem a sua dignidade de sujeito responsável e liberta Deus de imagens que não podem sustentar-se eticamente.

Remover o demônio do centro nem sempre produz alívio imediato: por vezes, deixa o ser humano mais exposto, mais desnudado perante suas decisões e sua própria história. Mas essa intempérie não é abandono: é o espaço onde a liberdade começa a ser real, verdadeira.

O mal existe, sim, mas não é absoluto. A história não está rota, mas aberta sempre à compreensão, liberdade e ação do homem. A fé não precisa de defesas, mas de compreensão.

O bem é sempre nosso horizonte natural e nossa possibilidade.

E talvez aí nasça a paz mais profunda: não a que ignora o mal, mas a que sabe que somos autenticamente livres, e que não há ameaças exteriores, mas somos responsáveis por nossa própria plenitude.

 

Alfonso Núñez Chávez

alfonsonunez.blog@gmail.com

Versão portuguesa traduzida com IA

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