Durante décadas, grande parte das elites intelectuais ocidentais acreditou ter compreendido a direção da história. Que, na medida em que avançassem a educação, a ciência, a tecnologia e a prosperidade, a religião recuaria. Que as igrejas se esvaziariam, que os dogmas perderiam sua influência e que o sagrado terminaria por ocupar um lugar cada vez menos significativo na vida coletiva.
Os dados pareciam respaldar essa tese. Em grande parte da Europa, a prática religiosa decaiu, desceu o número de vocações, a autoridade das instituições religiosas diminuiu e a secularização se mostrou como um dos escassos processos históricos tão inexoráveis quanto a lei da gravidade.
Mas algo inesperado ocorreu pelo caminho. Embora as igrejas começassem a se esvaziar, as sociedades não se tornaram menos fervorosas. Se as velhas ortodoxias perderam poder, surgiram outras novas. A aceitação do significado dos grandes relatos religiosos recuou, mas a necessidade de se vincular a uma comunidade moral permaneceu intacta. O que desapareceu realmente? Umas formas específicas do sagrado, não a necessidade humana que as sustentava.
Talvez nos encontremos ante a grande surpresa cultural do nosso tempo. A secularização triunfou muito menos do que esperado e do que acreditamos. Não porque a religião tradicional tenha retornado. Digamos claramente que não o fez. A surpresa é mais profunda. O que ocorreu é que o sagrado mudou de lugar.
Durante anos, a discussão tem se centrado em se vivemos em sociedades religiosas ou seculares. E se a pergunta estivesse mal formulada desde o princípio? E se a questão fundamental não fosse se cremos mais ou menos em Deus do que nossos avós? A questão de fundo é que realidades consideramos hoje intocáveis.
Porque toda sociedade, mesmo a mais racional, tecnológica e laica, estabelece zonas de intensa proteção simbólica. Trata-se de ideias, valores, identidades, símbolos ou narrativas que deixam de ser simples opiniões para se converter em referências absolutas. Realidades que não só se defendem, mas que inclusive se veneram. Realidades que não só geram discussão, mas que chegam a ser consideradas moral e existencialmente sagradas.
Neste sentido, podemos considerar numerosos exemplos da política contemporânea. Faz apenas umas décadas, as ideologias se apresentavam principalmente como projetos para organizar a economia e as instituições. Atualmente, funcionam cada vez mais como sistemas de identidade. Já não se limitam a propor soluções, mas que também oferecem pertencimento, reconhecimento e sentido. Geram por toda parte ortodoxias, heresias e mecanismos de exclusão. Sentenciam quem pertence ao grupo e quem fica de fora.
As redes sociais catalisaram este processo. Nunca foi tão fácil construir comunidades morais de forma instantânea. Nunca resultou tão simples identificar de imediato os desvios doutrinários. Nunca tivemos uma infraestrutura tecnológica capaz de converter cada discrepância em um espetáculo público massivo.
A palavra “cancelamento” e seu significado não apareceram por acaso. O interessante não é que surjam conflitos; os conflitos são inevitáveis. O notável é a forma que adotam. As polêmicas digitais se estruturam cada vez menos como discussões racionais entre cidadãos e cada vez mais como disputas sobre a pureza moral. A lógica que comportam não é a do debate, mas a da contaminação. O problema já não reside em que alguém esteja errado, mas em que se tornou impuro e deve ser silenciado e apartado. E o fenômeno não se vincula com uma ideologia concreta. Aparece em quase todos os âmbitos políticos e culturais, onde os conteúdos mudam, mas a estrutura punitiva permanece.
Algo similar ocorre no âmbito do consumo. Durante muito tempo, pensávamos que as marcas vendiam produtos. Hoje já sabemos que o que realmente vendem as grandes marcas são identidades. A compra de determinados objetos se converteu em uma declaração pública sobre quem somos e em que comunidade nos incluímos. Os consumidores não só adquirem bens, mas que também participam em narrativas, buscam reconhecimento, expressam valores e inclusive marcam status. O mercado aprendeu uma lição que boa parte da teoria social ainda se resiste a aceitar: os seres humanos não compramos unicamente por utilidade; também compramos sentido.
No esporte ocorre de maneira similar. Resulta difícil encontrar outro fenômeno capaz de aglutinar a centenas de milhões de pessoas em torno a símbolos compartilhados, rituais periódicos e intensas experiências emocionais coletivas. Quem tenha vivido um estádio cheio em uma final importante sabe que ali ocorre algo que vai muito além do entretenimento. E não é casualidade que a linguagem que utilizam os aficionados e os jornalistas esteja cheia —de maneira sutil ou explícita— de referências à fé, à devoção, ao sacrifício, à glória ou à redenção. Durante muito tempo, essas semelhanças têm se interpretado como simples metáforas. Talvez não o sejam e estejamos observando a mesma necessidade humana se expressando em contextos distintos.
O auge das espiritualidades alternativas aponta na mesma direção. Enquanto as religiões institucionais perdem influência em amplos setores da população, proliferam novas formas de busca espiritual. Meditação, mindfulness, retiros, experiências transformadoras, práticas de bem-estar, consciência expandida, psicologias do crescimento pessoal e um sem-fim de propostas híbridas ocupam um espaço cada vez maior no âmbito social e vital. Frequentemente se apresentam como fenômenos completamente novos. Não o são. O novo não é a busca de transcendência, mas que essa busca já não precisa se apresentar como religião.
E então aparece a inteligência artificial. A conversação pública de 2026 está cheia de perguntas sobre regulação, emprego, produtividade ou segurança. Sem dúvida, são questões importantes. Mas talvez estejamos passando por alto outra questão ainda mais inquietante. O que ocorre quando os indivíduos de uma sociedade delegam a orientação intelectual, emocional e inclusive existencial nos sistemas algorítmicos? As tecnologias sempre potenciaram as capacidades humanas. O singular da inteligência artificial é que começa a ocupar territórios que antes reservávamos para outras figuras de autoridade. Cada vez mais pessoas lhe consultam sobre que estudar, como educar seus filhos, como enfrentar uma crise pessoal ou que sentido dar a uma decisão difícil. Não estamos falando simplesmente de ferramentas. Estamos falando de confiança. E toda confiança profunda tem implicações culturais que transcendem o âmbito tecnológico.
Chegados a este ponto, convém esclarecer um possível mal-entendido. Nada disto significa que o futebol seja realmente uma religião, que as marcas sejam igrejas ou que a inteligência artificial seja um novo deus. A questão é outra. As sociedades atuais estão cheias de experiências que funcionam como religião, mas sem se chamar religião. São experiências que proporcionam identidade, comunidade, orientação moral, transcendência simbólica e narrativas compartilhadas.
Durante anos temos observado estes fenômenos separadamente. A política, por um lado; o consumo, por outro; as redes sociais, por outro; o esporte, por outro; a tecnologia, por outro. Talvez o erro tenha sido precisamente esse. Talvez todos estes formem parte de uma mesma história e do mesmo substrato.
Porque o grande equívoco das elites culturais não foi pensar que as religiões podiam perder influência. Isso era perfeitamente plausível e, em boa medida, ocorreu. O equívoco consistiu em acreditar que o desaparecimento das formas religiosas implicaria também o de sua raiz: a necessidade humana do sagrado.
A história recente parece sugerir exatamente o contrário. Quanto mais secular se declara uma sociedade, mais visível resulta a energia que dedica a criar novos espaços de significado absoluto. E aqui aparece uma consequência inesperada. Durante muito tempo contamos a secularização como uma história de perda. Como a perda de Deus, da transcendência, da religião. Talvez devêssemos começar a considerá-la de outra maneira. Talvez a secularização não seja a história de como desapareceu o sagrado. Talvez seja a história de como o sagrado escapou de suas antigas formas e instituições. Como a história de uma força cultural, uma realidade que abandonou um território para colonizar muitos outros. Se diversificou. Em outras palavras, a história de uma mutação.
Porque talvez Deus não tenha morrido completamente na cultura contemporânea. Talvez simplesmente tenha deixado de viver onde pensávamos e o procurávamos. E talvez a tarefa intelectual mais urgente do nosso tempo não seja explicar por que as sociedades modernas deixaram de acreditar, mas compreender em que acreditam agora.
Adolfo Sillóniz
Religión Digital
