SOFONÍAS 2, 3 e 3, 12-13
Buscai ao Senhor, vós, humildes, que cumpris os seus mandamentos; buscai a justiça, buscai a moderação, talvez possais esconder-vos no dia da ira do Senhor.
Deixarei no meio de ti um povo pobre e humilde que confiará no nome do Senhor. O restante de Israel não cometerá iniquidades nem dirá mentiras nem se encontrará em sua boca uma palavra enganosa; pastarão e se deitarão sem sobressaltos.
Sofonias é um pregador dos tempos do Rei Josias (640 – 609 aC.), contemporâneo de Jeremias. Prega em um momento muito difícil. Josias foi um rei piedoso, incansável restaurador do culto a Javé, exterminador de cultos idólatras.
Em seu tempo ocorre o “achado” do Livro da Lei no Templo: é promulgado novamente diante do povo, que jura fidelidade à Lei. São os momentos em que surge em esplendor a Escola Deuteronomista, que reescreve e interpreta toda a História de Israel…
Um rei assim deve ser, aos olhos do povo, abençoado por Deus, e atrair as bênçãos do céu para o povo. Mas Josias morre em uma desafortunada batalha contra o faraó do Egito, e a fé de Israel se fragiliza, a fidelidade à Lei diminui. Algumas palavras do livro de Sofonias o interpretam bem:
“Então vasculharei Jerusalém com lanternas
para pedir contas aos entorpecidos com vinhos generosos
aos que pensam:
“Deus não age, nem bem nem mal”.
Neste contexto, a pregação de Sofonias pretende que o povo volte ao Senhor. Seu livro é uma apresentação do Dia do Senhor, o dia do Juízo.
(Deste livro são tiradas as palavras do “Dies Irae, dies illa”, como ameaça do juízo do Senhor para os que estão adormecidos na vida)
Nosso fragmento aponta, no entanto, outro tema importante: “O restante de Israel”.
“O restante de Israel” é, em primeiro lugar, aquele pequeno restante do povo que retorna do cativeiro e se dispõe a reedificar o templo e voltar a praticar a Aliança, essa minoria do povo que espera de coração a vinda do Messias, longe de abordagens políticas e triunfais, e é fiel à Aliança desde o coração.
Este tema levanta uma linha muito profunda, inquietante e atual. Há um povo específico sujeito da Promessa e da Aliança, com seu culto, seu templo, seus sacerdotes…
Mas dentro dele há um núcleo que forma o verdadeiro povo, aquele que não honra a Deus de boca e por conveniência, por costume ou por raça, mas de coração, entendendo a Aliança como um compromisso com a missão que Deus lhe confia e a Promessa como a realização do plano de Deus para a salvação, não como a exaltação mundana de Israel.
Este povo é formado pelos “pobres de Javé”, que esperam a chegada do Enviado não a partir do poder ou da aparência, não para triunfar sobre as nações.
A pobreza significa simplesmente que não são os importantes do povo, que não têm poder nem influência alguma, que não esperam triunfar sobre os outros graças a Deus, e, no mais profundo, que esperam de Javé a libertação interior, a salvação, porque se sabem pobres, pecadores.
1 CORÍNTIOS 1, 26-31
Observai a vossa assembleia; nela não há muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos nobres. Pelo contrário; o que é loucura no mundo, Deus o escolheu para envergonhar os sábios.
Ainda mais: escolheu o que é vil no mundo, o desprezível, o que não conta, para anular o que conta, de modo que ninguém possa gloriar-se na presença do Senhor. Por ele vós sois em Cristo Jesus, neste Cristo que Deus fez para nós sabedoria, justiça, santificação e redenção.
E assim – como diz a Escritura – o que se gloriar, que se glorie no Senhor.
A nossa leitura contínua desta carta traz-nos hoje um fragmento especialmente adequado às outras duas leituras: “A Sabedoria”.
A interpretação deste texto é bem simples: os de Jesus não andam à procura de milagres, presenças extraordinárias e espetaculares do divino, nem profundidades de sabedoria destinadas a sábios, cientistas ou filósofos.
Os de Jesus participamos da sabedoria de Jesus: saber viver, saber quem é Deus e quem somos nós. E esta é “a sabedoria da cruz”, a que se resume brilhantemente no texto das “Bem-aventuranças”.
Segundo o costume da liturgia, o fragmento foi reduzido ao mínimo, mas é interessante que leiamos este fragmento com um pouco mais de amplitude, para captar plenamente o seu sentido: 1 Cor 1,18 a 2,16.
José Enrique Galarreta, S.J.
