SABEDORIA 2, 12-20
Disseram os malvados:
Vamos armar ciladas ao justo, porque ele nos incomoda; ele se opõe às nossas ações, nos acusa de pecados, nos repreende por nossa educação errada, declara que conhece a Deus e se dá o nome de filho do Senhor; é uma censura às nossas ideias e só de vê-lo sentimos desgosto; leva uma vida diferente dos demais e seu comportamento é distinto; nos considera de má índole e se afasta de nossos caminhos como se fossem impuros; declara feliz o fim dos justos e se gloria de ter por pai a Deus.
Vejamos se suas palavras são verdadeiras, comprovando o desfecho de sua vida.
Se o justo é filho de Deus, ele o ajudará e o livrará do poder de seus inimigos; vamos submetê-lo à prova do ultraje e da tortura para verificar sua moderação e apreciar sua paciência; vamos condená-lo a uma morte ignominiosa, pois diz que há quem dele cuide.
Como já sabemos, este livro é o mais recente de todos os escritos do Antigo Testamento. (Alguns pensam que sua redação pode ter ocorrido em tempos contemporâneos a Jesus, embora a maioria tenda a datá-lo por volta do ano 100 a.C.). Colocado sob a autoridade de Salomão, pretende recolher a sabedoria ancestral de Israel.
O capítulo segundo mostra “a sabedoria dos malvados”. Creio que é um texto belíssimo, que pode nos servir muito bem para nossa meditação. Para a eucaristia de hoje são selecionados apenas alguns versículos, mas é muito interessante o capítulo inteiro, que conviria que lêssemos na íntegra. Ele é incluído ao final.
Este texto tem duas aplicações para acompanhar o evangelho de Marcos. Por um lado, ao tipo de “Justo” que se encarna em Jesus e que é objeto de perseguição. Impressiona o paralelo de algumas frases com as invectivas que dirigiam os chefes do povo a Jesus na cruz (“Se é o Filho de Deus, que venha Deus e o salve”).
Por esta razão, este texto foi relido na igreja com sentido profético, anunciador de Jesus. Por outro lado, aplica-se à nossa vida cristã, em paralelo às palavras de Jesus que se referem às perseguições que sofrerão os que o seguem, tão bem expressas na segunda carta a Timóteo, culminando com a frase de 3,12: “Todos os que quiserem viver religiosamente como cristãos sofrerão perseguição”.
SANTIAGO 3, 16 – 4,3
Onde há invejas e brigas, há desordem e toda espécie de males. A sabedoria que vem do alto, antes de tudo é pura e, além disso, é amante da paz, compreensiva, dócil, cheia de misericórdia e de boas obras, constante, sincera.
Os que promovem a paz estão semeando a paz, e seu fruto é a justiça. De onde vêm as lutas e os conflitos entre vós? Não é acaso dos desejos de prazer que combatem em vosso corpo? Cobiçais o que não podeis ter, e acabais assassinando. Ambicionais algo e não podeis alcançá-lo, então lutais e brigais. Não o alcançais porque não pedis. Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjar em prazeres.
Segue a mesma linha dos domingos anteriores. Trata-se da “sabedoria de Jesus” e mostra certo paralelo com o primeiro texto, na medida em que reflete um modo de proceder que não nasce de Jesus, mas da sabedoria do mundo, originada nas más tendências de nosso espírito.
TEXTO COMPLETO DO LIVRO DA SABEDORIA
Cap. 2.
Porque dizem, discorrendo desacertadamente:
Curta e triste é a nossa vida; não há remédio na morte do homem nem se sabe de ninguém que tenha voltado do Hades. Por acaso viemos à existência e depois seremos como se nunca tivéssemos sido. Porque fumaça é o sopro de nossa respiração e, o pensamento, uma centelha do bater do nosso coração; ao apagar-se, o corpo se tornará cinza e o espírito se desvanecerá como ar inconsistente.
Com o tempo cairá nosso nome no esquecimento, ninguém se lembrará de nossas obras; passará nossa vida como rastro de nuvem, se dissipará como neblina acossada pelos raios do sol e por seu calor vencida. Passo de uma sombra é o tempo que vivemos, não há retorno em nossa morte; porque se colocou o selo e ninguém retorna.
Venham, pois, e desfrutemos dos bens presentes, gozemos das criaturas com o ardor da juventude. Fartemo-nos de vinhos excelentes e de perfumes, não deixemos passar nenhuma flor primaveril, coroemo-nos de rosas antes que murchem; nenhum prado fique livre de nossa orgia, deixemos por toda parte sinais de nosso regozijo; que esta é a nossa parte, esta é a nossa herança.
Oprimamos o justo pobre, não perdoemos a viúva, não respeitemos os cabelos cheios de anos do ancião. Seja nossa força norma da justiça, que a fraqueza, como se vê, de nada serve.
(Aqui se inclui o texto de hoje)
Assim raciocinam, mas se enganam; cega-os sua maldade; não conhecem os segredos de Deus, não esperam recompensa pela santidade nem acreditam no prêmio das almas imaculadas.
Porque Deus criou o homem para a incorruptibilidade, fê-lo à imagem de sua própria natureza; mas por inveja do diabo entrou a morte no mundo, e a experimentam os que lhe pertencem.
Capítulo 3.
Em contrapartida, as almas dos justos estão nas mãos de Deus e não lhes alcançará tormento algum. Aos olhos dos insensatos, pareceu que tinham morrido; teve-se por quebranto sua saída, e sua partida de entre nós por completa destruição; mas eles estão em paz.
Embora, a juízo dos homens, tenham sofrido castigos, sua esperança estava cheia de imortalidade; por uma breve correção receberão longos benefícios, pois Deus os submeteu a prova e os achou dignos de si; como ouro no crisol os provou e como holocausto os acolheu.
No dia de sua visita resplandecerão, e como faíscas em restolho correrão. Julgarão as nações e dominarão os povos e sobre eles o Senhor reinará eternamente. Os que nele confiam entenderão a verdade e os que são fiéis permanecerão junto a ele no amor…
José Enrique Galarreta
